segunda-feira, 3 de novembro de 2014

'Arquivos Soturnos Volume II - Melancolia', meu novo livro, está publicado

Capa do livro Arquivos Soturnos Volume II - Melancolia. 
O livro é uma espécie de continuação, para o primeiro Arquivos Soturnos Volume I (a ser subtitulado em breve). Apesar de ser uma continuação bibliográfica, as histórias não necessariamente se passam após os eventos narrados no primeiro livro. Todos os contos são anacrônicos, e se passam dentro de um mesmo "mega-universo". Alguns expandem histórias e personagens do primeiro volume, mas outras são narrativas paralelas nesta versão sombria e estranha do nosso próprio mundo. 

Quem quiser adquirir o livro, pode clicar no link acima, abaixo da foto de capa. Espero que gostem do material.

Forte abraço.

domingo, 24 de agosto de 2014

Resenha do Livro 'Arquivos Soturnos', por Rair Oliveira.

Resenha do livro “Arquivos Soturnos” de Rafael Tages Melo.

Uma garota que nunca cresce. Um duende. Um policial perdido em devaneios, com sede de justiça. O que todos esses elementos têm em comum? São oriundos do imaginário do cearense Rafael Tages Melo. Seja inovando ou recorrendo aos antigos clichês dos contos clássicos de terror, o autor nos arrasta para uma trama sedutora e envolvente. Em cada capítulo, surgem personagens distintos, com seus conflitos e ideologias, mas de certa forma unidos, como se possuíssem um elo que une todas as histórias. Em alguns momentos deparamo-nos com imagens sarcásticas e pessimistas; em outros contemplamos um autor envolto em sombras.

Logo das suas primeiras páginas, emergem personagens peculiares, cujas personalidades contem profundas reflexões filosóficas. No conto “A menina que não morreu” somos levados a refletir sobre nossa vida terrena e sobre a possível existência de um plano espiritual; o autor sabiamente constrói uma explicação física para o tema.

Esse fato escandalizou uma pequena e fictícia vila. E a história não poderia ser ambientada em um local melhor: a França. A França dos folhetins. A França que foi um grande centro cultural, berço de Carmilla e de tantos clássicos de terror, que influenciaram a literatura do mundo inteiro.

A história dessa garota é fantástica. Nesse conto, Rafael optou por enveredar-se pelos caminhos obscuros da alma infantil. Através da narrativa, encontramos o reflexo de nossas próprias angústias e nosso eterno desejo de imortalidade. Nas palavras de Ralph, encontramos um sentimento ultrarromântico, um desejo de retorno à infância. Talvez Marion fosse a personificação desse desejo de Ralph e do nosso próprio desejo. Marion é aparentemente indefesa e infantil, mas percebe-se a iminência de certo perigo em sua personalidade.

Imagine que você pudesse penetrar a mente de alguém e fazer com que as informações que você precisa materializasse em suas mãos como um pequeno baú. É exatamente esse prodígio que o atormentado policial Ryle Ales possui. Desde o inicio, o conto se parece com aqueles seriados de TV americana, que envolvem organizações criminosas, máfias e detetives justiceiros. Novamente, Rafael lida com temas paranormais, através da peculiar faculdade do personagem: dormir e acordar distante de casa. Fazer justiça e desvendar os mistérios que circundam sua própria mente, são os
objetivos desse policial. À medida que as descrições são feitas, imaginamos quadros surrealistas. Certamente por isso, o autor dispensou as ilustrações. Além desses contos, mais nove histórias integram a obra.

A diagramação é simples, mas o texto é muito bem escrito. Em todos os contos, percorremos por caminhos que se assemelham as temáticas lovecraftianas. Existe um misto de sedução, mistério e elementos bizarros ao mesmo tempo. Uma verdadeira união de elementos folclóricos europeus e por vezes futuristas. Juntos contam histórias sobre diversos temas, épocas e situações.

O que se destaca também é a utilização de períodos curtos. Esse recurso é fantástico: é usado pelos grandes escritores e evita que a ideia se perca em meio a frases extensas e complexas. O conteúdo do texto é passado brilhantemente. Os nomes dos capítulos também se destacam, são enigmáticos e intrigantes. Textos que possuem elegância, qualidade conquistada através da apreciação do autor, por grandes clássicos literários.

Com uma abordagem peculiar, tradicional e ao mesmo tempo, inovadora, Rafael Tages, nos conquista pela simplicidade inicial de seus escritos, mas que vão se tornando complexos e profundos à medida que nos rendemos aos seus universos fantásticos. São temas atemporais que vão de encontro aos interesses dos leitores da literatura fantástica desta década. Rafael nos apresenta arquétipos e símbolos, levando-nos para um mergulho nas sombras, nas diversas mitologias e por que não dizer, dentro de nós mesmos. São páginas ricas, sequências rápidas, histórias com ritmo, que não exageram nas descrições, mas que dizem exatamente o que precisamos. O medo muitas vezes se apossa de nós, a respiração muitas vezes falha, durante a leitura empolgante dessas belíssimas páginas; histórias que foram imortalizadas dentro desse verdadeiro arquivo soturno.

Rair Oliveira.
Site Sombrias Escrituras
Endereço: http://www.sombriasescrituras.net/
Link da Entrevista no Site Sombrias Escrituras.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sêneca e a brevidade da vida.

A vida humana oferece tantas complicações. Mesmo se não seguirmos o caminho do pessimismo profundo, há tantos problemas com ela. Todo o tempo perdido com atividades sem sentido que  todos, otimistas ou pessimistas, teístas ou ateus, homens ou mulheres tem que passar, só para ... viver . Todas aquelas horas, perdidas, sem fazer o que queremos (o que queremos, caramba! ) Sem fazer nada para melhorar a nós mesmos, para agradar, para nos curar e, portanto curar (ou tentar!) a sociedade, o mundo, etc ( curar aqui em um sentido clássico , não num sentido pessimista).

Sêneca é reconhecido como sendo um filósofo estóico e, embora grave em si , para mim o estoicismo é uma filosofia bizarra, no sentido de que acho por vezes difícil identificar se um estóico é mais parecido com um otimista ou pessimista. Às vezes pode parecer que eles são ambos - ou pode ser que eles não tenham se decidido ainda? De qualquer forma - embora ele tenha sido um estóico, ele escreveu um bom texto, de fácil acesso, chamado "Sobre a brevidade da vida", que eu poderia dizer que está localizado dentro de um espectro mais pessimista de idéias, se não fosse por algumas idéias estranhas aqui e ali (estranhas, nota-se aqui, ao pessimismo , ou seja, fora do espectro de idéias pessimistas).
Gostaria de atrair a atenção de um dos velhinhos e dizer-lhe: . "Eu vejo que você atingiu maior expectativa de vida e agora está perto de um século ou mais, por favor, dê-nos um breve detalhamento das suas experiências. Calcule quanto de que período foi subtraído por um credor, uma amante, um patrono, um cliente, discutindo com a sua esposa, punindo seus escravos, vadiando na cidade. Adicione ao subtraendo as doenças auto-infligidas e o tempo deixado ocioso. Você vai ver que você possui menos anos do que o calendário mostra. Procure na memória: quantos dias você tinha um plano consistente, quantos deles funcionaram como planejado, como foi raro que tenha se utilizado do seu tempo para si mesmo, o quão raro a sua face não estava avermelhada, e que realizações tem para mostrar por tanto tempo de vida, quanto de sua vida foi roubado por outros sem que você esteja ciente do quanto você perdeu, o quanto foi dispensado em arrependimento infundado, alegria tola, ganancioso desejo, --- e perceberás que a sua morte será prematura.

Por que? É porque você vive como se fosse viver para sempre, a idéia da fragilidade humana nunca passou pela sua cabeça, você nunca percebe o quanto do seu tempo já passou. Você desperdiça-o como se sua loja estivesse lotada de produtos, a ponto de transbordar, quando na verdade o dia que você fizer um presente para alguém, este pode ser o seu último . Como o mortal que você é, você está apreensivo de tudo, mas seus desejos são ilimitados, como se você fosse imortal. Muitos homens vão dizer: " Depois do meu quinquagésimo ano vou aposentar e relaxar, meu sexagésimo ano vai me liberar das obrigações." E que garantia você tem de que sua vida será mais longa? Quem providenciará para que o seu planejamento corra como previsto? Você não tem vergonha de reservar para si apenas a parte final da vida e deixar para pensamentos sérios apenas aquele tempo que não utiliza para os negócios? Como já é tarde para começar a viver enquanto você já deve dar adeus à vida! O esquecimento estúpido mortalidade adia conselhos de sanidade para os cinquenta ou sessenta anos, com a intenção de começar a vida em uma idade que poucos chegaram!
Meio que nos faz pensar em todas as horas passadas no escritório, em festas de aniversário de pessoas com quem não temos nenhuma relação (mas temos que comparecer ainda assim), o tempo desperdiçado em filas, e muito, muito mais.

Com isto quero terminar esta breve atualização.

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O que você achou do texto e da filosofia? Me conte, no espaço abaixo dedicado aos comentários!

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Texto retirado do original em inglês, de minha autoria, em The Last Page

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

[Conto original] Sorrelfa, por Rafael Tages Melo.



--- Caio, estão querendo falar com você. Lá da chefia. 
--- Ok. 
Era o dia 5 de Novembro. A secretária da nossa filial em Nova York, Tereza, me avisava que eu havia recebido uma ligação da diretoria. Uma ligação que mudaria minha vida. Eu havia deixado o Brasil, e estava trabalhando na filial do “News United” em Manhattan, um feito que havia deixado minha família orgulhosa. Infelizmente, eu não estava satisfeito  da mesma forma. Eu odiava o lugar - não a própria profissão, que ainda me sustentava nos piores dias. Então eu cheguei à minha mesa, e atendi a ligação. Era Welsh, um dos sócios, que estava me felicitando e me contratando especialmente para a cobertura de uma entrevista com Halten Adolfson, terceiro secretário do corpo diplomático sueco na ONU, dali a dois dias, para falar sobre o assassinato do embaixador do mesmo país, Deima Streingell. Permita-me explicar melhor. O embaixador havia sido assasinado no dia 23 de Outubro em um hotel, com duas acompanhantes. Os três foram assassinados, e das mulheres restaram apenas os corpos. A mídia rugia, e o mundo acompanhava todo o desenrolar da investigação. Mesmo em nosso jornal, “News United”, formou-se uma seção especializada neste acontecimento para ficarmos a par de qualquer avanço. Eu fazia parte desta seção, e havia acabado de aceitar a missão que a mim havia sido concedida. Cobriria a entrevista, em nome do jornal, no dia 7 de Novembro. Agradeci ao diretor, e  desliguei. Aquela noite foi relativamente animada. Estava excitado pela oportunidade de fazer 
parte de um evento tão importante como este. Apesar de a cena ser triste, eu me beneficiaria na minha carreira jornalística pela cobertura que faria. Pela ansiedade e senso de autogratificação, combinei de sair à noite com Dora, uma garota que eu havia conhecido há alguns meses. Saímos para jantar comida tailandesa. Nova York, como sempre, estava em polvorosa, funcionava 24 horas por dia. Eu festejava e a personalidade forte e independente de Dora me acendia. Uma verdadeira nova-iorquina, forte, solteira por convicção. Ela me magnetizava, pelo jeito que era, o seu olhar distante, aparentemente apaixonada, mas ao mesmo tempo distante. Como havia sido minha primeira conexão naquela cidade, desde a minha chegada, me apeguei a ela, e combinávamos algumas  eventualmente, quando a agenda dela permitia, o que, naquele dia era mais um motivo para aumentar a minha excitação: uma grande oportunidade, no trabalho, e em encontro com a minha musa. Depois de irmos a um barzinho, e conversar, partimos para o cinema, em uma destas sessões da madrugada, e depois de tudo, acabamos mais uma vez juntos, no pequeno apartamento que eu alugava. Acordamos, próximos e ficamos um pouco ali, na cama, mas logo ela quis sair, me deixando em casa por volta das 9 horas da manhã sozinho. Eu havia decidido fazer minha preparação e pesquisa para a entrevista do dia seguinte em casa naquele dia, e assim o fiz. Desde de manhã, liguei o computador e fiquei em casa o resto do dia. Cumpria meus prazos e compromissos, e assisti vídeos de coletivas. Recebi, mais à noite, uma mensagem de Dora - uma daquelas mensagens alegres, mas críptica, a respeito de nosso breve rendez-vous na noite passada. Como sempre, a dissimulação típica de alguns tipos de mulher, e particularmente encontrado nela estava lá. Já era noite quando decidi parar de trabalhar, e fiquei ouvindo, pelo computador, vídeos de comédia aleatórios, stand-ups e similares. Continuei assistindo um vídeo no computador, e embalado pelas risadas, além dos eventuais barulhos da cidade, eu adormeci. O dia 7 surgiu rugindo, e eu comecei a me preparar para ele logo cedo. Vesti o terno azul escuro que eu possuía, e coloquei o sapato preto que eu havia engraxado na noite anterior. Já recebia ligações, do jornal, e de colegas do trabalho. Deixei o apartamento às 10 horas, para enfrentar o trânsito maluco até o jornal, e depois disto me dirigi ao Madison Resort, onde o dignitário sueco, amigo pessoal de Streingell iria finalmente falar à mídia. 
--- Caio, você tem que perguntar alguma coisa a ele, entendeu? Você já tem alguma ideia? -- o diretor da filial me perguntava, naquela reunião preliminar. Ele juntamente com outros colegas já deglutiam uma enorme quantidade de fast food ali em cima da mesa, que estava também abarrotada de papéis. 
--- Tenho. Estudei o caso. Com certeza, não desapontarei o jornal. 
Havia conseguido esta oportunidade antes dos 30 anos, e esta seria a primeira cobertura de proporções internacionais que eu iria fazer parte diretamente. Logo após à breve reunião, o diretor ainda me falou rápido de alguns outros compromissos triviais, e pediu para que eu saísse  em direção ao hotel, e assim o fiz. Preparei-me com a equipe, e saímos em direção ao complexo. Chegamos em pouco mais de meia hora, nos apresentamos, fomos escaneados por segurança, e então eu subi até o andar no qual a convenção se desenrolaria. Como ainda estava cedo, eu decidi descer novamente para o salão de jogos. Alguns homens jogavam xadrez, outros embaralhavam cartas, enquanto partilhavam rostos alegres e conversa de salão. Um deles entretanto, me pareceu estranho por estar apenas observando, e lendo algo no computador móvel que tinha em sua mesa. Então ele se levantou e veio até mim. 
--- Você trabalha em um jornal, certo? – perguntou um homem vestido de terno, com a barba rala, e um relógio de metal prateado, e o sotaque claramente estrangeiro, de algum dos países do Leste Europeu. Não perguntei, e não fiquei sabendo especificamente qual era, mas depois, bem depois, me lembrei que era parecido com o sotaque da Romênia. 
--- Sim -- respondi.
Ele olhou ao redor. 
--- Posso falar contigo ali na varanda?
--- Pode. 
Andamos um pouco, passando pelas cortinas brancas que dividiam o salão, chegamos à varanda do hotel. 
--- Como é o seu nome? 
--- Caio. – eu respondi, enquanto o homem olhava para os lados e para a frente, para o jardim que havia abaixo e à frente, no térreo.
--- Caio, do canal..?
--- Não, não faço televisão. Do jornal “News United”.
--- Ah, certo. Certo. Então. Deixa eu te falar uma coisa. Eu sei que você provavelmente não vai acreditar em mim, mas eu preciso que você acredite. O hotel vai ser atacado dentro em pouco. Nós não podemos fazer muita coisa, mas você tem que pegar estas coordenadas. Nelas se encontram os arquivos com tudo que sabemos. 
--- E porque eu?
--- Porque não? De toda forma, você trabalha em um jornal, não é? Tem condições de tornar público o que preciso for. 
--- Mas que história é esta de ser atacado? Será atacado por quem?
--- Eu não posso dizer. -- ele quase sussurrou o final. 
--- Podemos chamar a polícia. 
--- Não -- ele disse -- não adianta. Já está tudo cercado. Mas com sorte, você vai poder sair daqui. Guarde as coordenadas. 
O homem bateu no meu ombro e saiu andando, olhando ao redor com discrição. Eu fiquei a observá-lo, impaciente. Desci então até o mezzanino pelo elevador. Olhei o relógio. Depois olhei para a câmera que filmava meus movimentos no elevador. No mezzanino eu andei pelo meio de todas aquelas pessoas ali, e cheguei perto do segurança, que estava na porta. 
--- Olá -- falei-- Olha eu sei que vai parecer estranho, o que eu vou dizer, mas eu fui informado que talvez o prédio esteja no alvo de terroristas. 
O segurança fez sinal para que o companheiro observasse ao redor. 
--- Senhor, você tem certeza disso?
--- Sim. 
--- Me acompanha até a sala de controle então?
--- Certo -- eu olhei o relógio -- Sem problema. 
Ele pegou o aparelho de rádio na sua cintura e se comunicou com a central, afirmando que estaria com um código laranja. Eu segui pelo mezzanino enquanto voltávamos ao elevador. 
--- Está nervoso? -- ele me perguntou.
--- Sim. Quer dizer, este é um grande evento, seria o meu primeiro evento internacional. E agora isso...
--- Pois é. Mas não deve ser nada. Vamos verificar com os rapazes. 
O elevador chegou no subsolo 3. 
--- Venha comigo -- ele disse. 
Eu saí com ele, então fomos andando, até que chegamos perto de um corredor, no qual havia uma porta. Ele então me atacou, segurando pelo meu pescoço e abrindo a porta, e logo eu estava no chão daquele quarto, que parecia mais um galpão velho, com móveis e partes de móveis espalhados, latas de tinta, vassouras. 
--- O que está acontecendo? Que absurdo! – eu gritei – Qual é a tua cara? 
--- Fica parado aí, branquelo! Eu estou avisando -- ele apontava a arma pra mim.
--- Como assim? Que história é esta? Você não pode me matar aqui, eu sou um repórter conhecido, do jornal News United.
Ele riu. O semblante estava completamente diferente do segurança calmo e reservado que eu havia aproximado alguns minutos antes. Estava completamente tomado por uma força e uma alegria alienígenas, que faziam meu sangue borbulhar. 
--- Isso é muito maior do que você, seu verme. Isso faz parte do plano. 
--- Que plano é este? 
Ele apenas riu. 
--- Quer saber de uma coisa? Porque você não vem me enfrentar como um homem de verdade ein? Larga a arma -- eu comecei a falar. 
Ele me olhou, virando um pouco a cabeça. Eu era menor do que ele; ele, um segurança, homem negro, por volta dos 2 metros de altura, provavelmente sabia artes marciais, e com certeza ia à academia. Eu, por volta de 1,80 m, um pouco magro, apesar de me manter sempre em uma boa dieta, e fazendo exercícios regulares. Com pouco treino em artes marciais - com exceção do que eu fiz do período de boxe, quando adolescente, era muito pouco provável que eu fosse vencer aquele homem. Mas não é como se eu tivesse uma outra chance. Ele ia me matar, ali mesmo. Então eu o desafiei. Ele baixou a arma. Eu estava a pouco mais de dois metros dele. Ele baixou a arma, e retirou a camisa. Ele tinha músculos desenvolvidos, e uma tatuagem no peito esquerdo que a camisa do trabalho escondia. Uma mão, vermelha. Ele estalou os ossos do pescoço, e jogou a camisa para o lado: esta repousou em uma lata de tinta, e uma das mangas ficou próxima ao chão cimentado. Eu engoli em seco. O meu adversário, no entanto, não sabia de algo que eu levava na manga. Algo que eu sempre carregava: um soco inglês, no bolso do meu blazer. Eu sempre levava o mesmo, depois que fui surpreendido por um cachorro que se soltou da coleira que seu dono levava, e atacou uma garota de 15 anos na minha frente. Sorte dela, eu estava por perto, mas foi difícil livra-la da fera, até que o dono chegasse. Eu ainda recebi uma mordida forte perto do calcanhar. Se eu estivesse levando uma arma branca, algo como uma faca... ou um soco inglês, eu poderia ter surpreendido aquele pitbull. E assim eu fiz a partir daquele dia. Nunca deixava de andar com aquela arma, a minha proteção, adornada em dourado. E ali, ela me serviria. Um homem prevenido vale por dois, ou algo assim, como diziam. Não sei se valia por dois, mas com certeza, descobriria em segundos. Ele avançou até mim, me atingindo com um chute. Eu caí para trás, em algumas latas de tinta. Ele veio novamente, e eu saí do meio. Novamente ele ainda investiu para cima de mim, e desta vez eu respondi à altura, me  engalfinhando com o bruto, levei dois murros nas costelas, que doeram muito. Então, eu busquei freneticamente, aquela arma dentro do meu paletó. Ele me jogou no chão. E então partiu novamente em meu encalço. Finalmente, no meio de toda aquela confusão, eu consegui acertar um golpe, na canela dele. E depois na perna. E me levantei, e acertei um outro golpe cruzado na barriga dele. E depois, finalmente, no rosto. Ele caiu no chão, desacordado. Eu fui até ele, e peguei a arma da cintura. Abri a porta. E saí correndo. Então eu ouvi barulhos, gritos. Resolvi subir pelas escadas. Eu não sabia atirar, mas minha mente me instigava: não podia ser tão difícil. Eu já tinha visto centenas de vezes nos filmes. Então andei. Ouvi um barulho forte. A estrutura do prédio tremeu. Minha mente acelerou novamente: e se o edifício desabasse? Aquele medo, um medo específico, diferente do enfrentado por mim na luta contra aquele segurança fajuto, apossou-se do meu ser, quase me deixando paralizado. No entanto, só por alguns segundos o senti; continuei subindo as escadas, e a respiração se tornava cada vez mais ofegante: minha visão se tornava opaca devido à força extrema dos batimentos cardíacos. Cheguei finalmente ao mezzanino e  atravessei a porta de metal que dispunha uma letra M enorme em cima do espaldar, havia ainda uma outra porta, a qual abri novamente, apontando a arma: vi uma mulher correr, passando pela frente da porta, e mais outra, e um homem, todos visivelmente assustados, os braços na frente do corpo enquanto corriam. Dois homens, vestidos com o colete do hotel sinalizavam para que as pessoas seguissem uma determinada direção, que eu vi ser a saída do hotel. A sensação de normalidade - ou o que podia ser tomado como normalidade e segurança numa situação daquelas - corria de novo em minhas veias, e eu baixei a arma. Andei até o meio da loucura e me uni àquelas pessoas que corriam para fora daquele prédio. Já lá fora, a polícia estacionava seus carros, e ambulâncias já entravam no estacionamento. Eu fiquei ali, olhando aquilo tudo, já me sentindo mais seguro perto das autoridades públicas, das instituições de saúde e emergência e da luz do sol: olhava para dentro do hotel e via as pessoas corriam, assustadas, e me empurravam, enquanto eu o fazia. Queria entender o que havia se passado. Até que eu vi. Um dos homens que vestia o colete do hotel olhou para mim. E então ele continuou olhando. Um riso surgiu em seu rosto,  repentino. Mas não era um mero sorriso, não, não. Era um sorriso de alguém que sabia o que havia acontecido, inclusive em relação aos pequenos detalhes. Alguém de dentro. Alguém que sabia dos segredos ali. Ele sorriu, sardonicamente. Eu vi. Eu sei que eu vi. Então ele saiu da minha linha de visão, e várias outras pessoas entraram na frente dele, correndo, desesperadas. E eu não o vi mais. Um policial chegou perto de mim e pediu para que eu deixasse a arma no chão. Eu fui interrogado e contei minha história, e fui medicado também. E no fim do dia, eu cheguei em casa. 

*****

--- Sim, eu estou bem. Amanhã eu chego aí. Obrigado, Marcel. Abraço. – eu respondia diversos telefonemas sobre o ocorrido. O último havia sido de Marcel, colega jornalista. 
Sentei-me ao sofá da sala, e respirei profundamente. Depois liguei a televisão e fiquei observando as notícias. Finalmente, soube por outra empresa jornalística a respeito: uma explosão havia ocorrido no prédio do hotel, no 15º andar, e presumi ser a mesma que eu ouvi enquanto subia as escadas até o mezzanino. Não haviam indícios de que fosse algo premeditado ou ataque terrorista, diziam as autoridades. O FBI se prontificou a examinar o caso em conjunto com as potências locais. Por fim, quando o jornal começou a falar sobre uma nova descoberta a respeito de um tomate que ajudava a emagrecer, levantei-me e fui ao banheiro me assear. Lembrei do sorriso estranho do homem vestido como funcionário do hotel. Ocorreu-me ainda a conversa com o homem que havia me providenciado o papel com diversos números escritos; números a que ele se referiu como coordenadas. Depois que acabei o banho, fui procurar em meu paletó o papel. O que fazer? Ir à polícia? Contar aos colegas? Divulgar no jornal? Se nem mesmo os dignitários do corpo diplomático sueco sobreviveram a este ataque, ao ataque de que ele me havia avisado, o que poderia acontecer comigo? Era melhor tentar esquecer aquilo tudo e não abrir mais minha boca a este respeito. Tentaria deixar que as coisas fluíssem até sumirem, do mesmo jeito que vieram. Ou pelo menos eu achava que faria isso. No dia seguinte, fiz tudo da mesma forma, esperançoso em enviar à providência cósmica a impressão de que eu era o mais simples e ordinário ser humano a pisar sobre a Terra. Expliquei-me, naturalmente, para os colegas e para o meu chefe, contando o que aconteceu. Trabalhei naquele dia como de costume, ainda cobrindo os eventos do misterioso acidente no hotel. Fui liberado duas horas mais cedo. Atravessei a cidade poeirenta e confusa, e cheguei ao meu pequeno local alugado: tranquei a porta. O medo tomou conta do meu corpo, não sei porque a demora, pois o pior havia me acontecido um dia antes. No entanto, isso sempre me acontecia, de alguma ou outra forma: nos eventos mais danosos, meu corpo não reagia no mesmo dia. Se eu havia brigado com algum parente, algum amigo, no mesmo dia eu dormia mais realizado do que jamais poderia supor. Durante muito tempo, eu pensava ser uma reação química, algum hormônio que até ali, eu não sabia muito a respeito. Naquela noite, comecei a procurar por armamento na internet, para proteger-me de forma pessoal, em virtude do confronto que me assolou na figura do segurança insano 
daquele hotel. Minha perplexidade me dizia que eu não poderia me confiar muito tempo no meu soco inglês e que eu havia apenas tido um pouco de sorte. Absorto nestes pensamentos, eis que um vento frio subitamente adentrou meu apartamento. Decidi me levantar e fechar a janela. Foi então que vi um vulto, que subia pela parede externa do prédio. 
--- Merda! 
Fechei a janela, mas ele chegou e atacou um dos vidros, quebrando-o. Era claramente um homem. Joguei o meu abajur até ele, mas ele se desviou. Então eu vi que estava lidando com forças maiores – pessoas capazes de me matar, se quisessem. E aquele  vulto queria me atacar. Então eu sai correndo do meu apartamento, não sem antes pegar meu blazer esporte - que continha em um de seus bolsos, as coordenadas, e no bolso interno o meu confiável soco inglês. Desci na rua, e comecei a correr para o lado oposto ao da minha janela, em direção à avenida movimentada que ficava a alguns quarteirões. Um táxi estava passando, na rua paralela, e comecei a correr em direção a ele. Olhei para trás, e vi um outro vulto, agora claramente um cachorro correndo em todas as suas quatro patas. O que mais me chamou atenção, foi um brilho de qualquer coisa alaranjada nele. Eu entrei no táxi, e assim que ele começou a se mover, algo se bateu contra o porta-malas. Eu gritei: 
--- Corre, cara! 
Talvez pelo medo, talvez pelo grito, o motorista continuou a viatura pela rua.
--- O que foi isso?
--- Não sei. Um cachorro eu acho. 
--- Nossa mãe, ainda bem que eu trago aqui uma ajudinha -- ele levantou um revólver 38, cromado -- Pra onde você vai?
--- Direto aqui, nesta rua, até Andrews Avenue 9999 – era o endereço de Dora. Ela estava me ligando, então eu perguntei -- Posso passar aí? Estou com um problema. 

*****

Ela me confirmou e, em pouco, o táxi encostou defronte o complexo de apartamentos onde ela residia. Paguei a corrida com o dinheiro que havia no meu bolso, e subi. Ela me recebeu, tranquila e reservada, como sempre. Jantamos comida congelada, uma lasanha ao molho sugo que ela tinha no freezer. Quis contar-lhe, no jantar, mais detalhes, sobre tudo, mas não sabia como, exatamente. Apenas sorri, desconfortável, e a noite passou. Ela arrumou para que dormisse no sofá. Quando a casa estava em silêncio, eu me levantei e fui até o computador dela. Incendiado pela dúvida, liguei o mesmo, as coordenadas em minha mão. Inseri as mesmas no mecanismo de busca, e fui surpreendido: os números apontavam para um local que ficava a pouco mais de 10 quilômetros dali. A luz do escritório se acendeu. Era Dora. 
--- O que está fazendo?
Eu contei o que havia acontecido. Tudo que sabia. Ela me ouviu. Então eu finalmente pedi ajuda.
--- Eu quero ir lá. Ver o que é isso tudo. 
--- Sério? Agora?
--- Sim. E preciso de ti, se algo acontecer, você tem que avisar as autoridades.
--- Porque você quer ir uma hora destas lá? Deixa pra amanhã. É mais seguro. 
--- Eu... quero ir logo. Amanhã pode acontecer alguma outra coisa. 
--- Ahn... -- ela me olhou, com o rosto consternado. Relutante, aceitou. -- Ok, então. Vamos lá. Deixa eu só me vestir. 
--- Ok. 
Chegamos ao local alguns minutos depois, no Bronx. Era um prédio de apartamentos velho, abandonado e escuro, como muitos ali naquela parte da cidade. Empoeirado e cinza. Paramos o carro dela na frente, e eu pedi para que ela ficasse dentro do veículo. Observamos a rua, e quando o silêncio já tomava conta de tudo eu deixei o veículo. Me aproximei da grade, que estava trancada com uma corrente. Então eu escalei a mesma, e entrei na área jardinada do complexo de apartamentos. Andei um pouco mais, até chegar perto do prédio, então ouvi uma chamada. Era Dora. Ela me balançava uma lanterna por entre as grades. Eu me aproximei dela e peguei a mesma, agradecendo. Com o aparelho, caminhei cheguei na porta do edifício e girei a maçaneta, depois de hesitar um momento. Ela abriu, rangendo de forma sinistra. Apontei a lanterna para dentro, e parei, por um momento. Depois de olhar ao redor, entrei. Era um primeiro andar corriqueiro, com os armários para cartas do lado esquerdo, e a escada do lado direito. Eu comecei a subir as escadas, pois tinha uma ideia do que procurar. No papel, escrito junto com as coordenadas, havia um número, 303, que eu não havia compreendido até ali. Estava escrito com lápis, quase imperceptível, com outra caligrafia, e perpendicular às coordenadas. Possivelmente se trataria do apartamento no terceiro andar. Então, continuei subindo as escadas, até chegar neste. Procurei com a lanterna, o terceiro apartamento, e vi na porta, o letreiro quase apagado - 303. Estendi a mão, e girei a maçaneta da porta, que estava também aberta. Lá dentro, um apartamento comum, vazio de móveis e qualquer outra coisa, com exceção de uma. No meio da sala, jazia uma estrutura coberta com um pano azul marinho. Eu adentrei o apartamento, direcionando o facho da lanterna ao redor do imóvel. Então vi, próximo de mim, decorado com algumas teias de aranha, um interruptor. Acendi a luz incandescente. Então me aproximei da estrutura no meio da sala, e retirei a capa de tecido. Era um computador que estava escondido pelo véu. Um computador antigo, parecido com um 486 que minha família havia um dia adquirido. Eu me sentei no banco que havia debaixo da mesa, e liguei o mesmo. Havia apenas um fio, conectando o mesmo à fonte de eletricidade. Não havia conexão com a internet. A tela era monocromática. Logo apareceu, em um sistema operacional específico, uma série de arquivos e documentos. Eu comecei a ver e fiquei hipnotizado. Até me esqueci de Dora, por uns minutos. Esqueci-me que estava ali. Só passava pelos arquivos, um a um, saciando minha curiosidade, a respeito daquela conspiração. Então eu comecei a ler sobre a Mão Vermelha. Era uma sociedade mais antiga do que eu podia imaginar, com traços documentados desde 10.000 anos. Quase  não consegui acreditar no que lia. Então, um barulho meu conhecido atualmente, infelizmente, se fez ouvir. A arma engatilhou-se. 
--- Se afasta do computador. 
Era Dora. 
Levantei minhas mãos devagar. 
--- Estou levantando -- avisei com medo. 
--- Fica ali no canto, agora! -- ela gritou. 
Montes de coisas passaram pela minha mente. Até hoje não sei direito qual foi o processo de raciocínio - ou falta de  - que me levou a avançar em Dora, para tentar remover-lhe a arma. Começamos a engalfinhar. Então eu finalmente ganhei, pela força, pegando a arma. Ela ignorou meus gritos e tentou alcançar o computador, então ao invés de atirar eu dei-lhe um chute do estômago, para que ela ficasse no chão por alguns momentos. Ela rolou com dor. 
--- Que absurdo, Dora, você ia atirar em mim? -- eu disse, pegando no meu rosto, que estava ferido pelas unhas afiadas dela, que por coincidência, eram vermelhas. --- Isso prova mais ainda que tudo isto... não tente me impedir -- eu fui enfático, apontando a arma para ela. 
Então me aproximei do computador, e comecei a retirar os cabos. Eu iria levar a CPU para investigar. Foi então que vi, de canto de olho, algo que me chamou a atenção: ela apontava outra arma pra mim. Então corri para me esconder do outro lado da mesa. Ela se levantou e foi andando até o PC. Eu ouvi os passos. Tinha que ser rápido. Então eu empurrei a mesa, com a máxima força que pude conseguir. O monitor e a CPU caíram, ela atirou, eu continuei levando a mesa até próximo dela, e levantei a mesma, ela atirou, então eu joguei, e ela correu, e quando ela se desviou, eu pulei em cima dela, novamente nos engalfinhando. Entretanto, a dor também apareceu. Eu havia recebido um tiro no ombro. Não foi o suficiente para impedir de vence-la em uma luta corporal, mas eu sentia dor em cada movimento. Grunhindo, eu acertei dois socos nela, tentando evitar maiores escoriações no rosto e pescoço. Finalmente, eu a arremessei no chão, longe do computador. Então me aproximei do mesmo e peguei a CPU do chão, saindo daquele apartamento, correndo, com ela debaixo do braço direito, que estava em melhores condições do que meu sangrento braço esquerdo.  Saí no saguão, e vi o portão entreaberto -- então ela tinha aberto o cadeado e a corrente, com algum tipo de chave mestra? Não sabia, mas aproveitei e saí correndo dali, o computador no braço. Comecei a descer por aquela rua escura. Não andei um quarteirão inteiro, quando eu ouvi o carro de Dora ligar o motor. Então olhei para trás e vi as luzes acesas. Aprumei o passo, e qual não foi a surpresa - o carro vinha diretamente atrás de mim. Foi rápido aquilo - no final das contas, ela se atirou à própria morte. Pois um ônibus atravessou o caminho, atingindo o carro em cheio. Eu fiquei um pouco ali, olhando, e avisei gritando para que chamassem a polícia, mas, sem me orgulhar, saí dali o mais rápido possível.

*****

Fui dormir na casa de um amigo enquanto estudava o computador - enquanto tentava entender tudo aquilo que se passava. Descobri que a “Mão Vermelha” é uma sociedade secreta com projetos sinistros, que pretende dominar o mundo e instalar verdadeiro caos - ela funciona de forma encoberta, se entrelaçando em muitos eventos ao redor do mundo que até o momento eu via de forma difusa. Ela controla e manipula segredos e pessoas influentes. E além disso, o que me mais me estremeceu na descoberta daqueles arquivos, reunidos pelo falecido Deima Strengell e sua assessoria, é que ela dispõe de contatos extradimensionais - de poderes exóticos, e ligações com o ocultismo. Os arquivos não iam muito a fundo, mas eu descobri que o que me atacou naquela noite era um demônio, um cão dos infernos, um hellhound, como dizem os ingleses. Ainda tremo, e não sei como, sobrevivi um encontro com um deles. Dizem que, quando chamados, eles podem permanecer pouco tempo, e se lhes dão uma missão, evaporam quando não a realizam na duração máxima permitida, que foi o que aconteceu.
Depois de saber sobre isso, minha vida não foi mais a mesma. Deixei o meu trabalho, e passei a viver de bicos, viajando por grandes cidades americanas. Hoje, eu faço parte de um grupo de pessoas que sabe disso. Eu sei que aquele ataque ao hotel foi  planejado e meticulosamente realizado pela Mão Vermelha, da qual eu fujo, pois sei de seus segredos. No entanto, ainda não sei muito. Conversei então um dia com um tal de Ralph Nolan, investigador do oculto - do qual fiquei sabendo a respeito depois de iniciar meus estudos nesta área em razão dos fatos que aqui narro -  em uma cafeteria. Ele me contou mais a respeito disto tudo, e creio que eu vou poder achar o meu lugar nesta história toda. Há de haver algum. Lembro-me que ele sentou-se, à minha frente. Depois das trivialidades, eu fui logo indagando:
--- Eu quero saber o que está acontecendo. 
--- Todo mundo sempre quer. -- ele disse. 
--- --- Mas eu quero saber mais sobre isso tudo. Sobre... magia... isso existe? Como a gente faz mágica? Como funciona? 
---  São muitas perguntas... – ele respondeu, calmo.
--- Como funciona? -- perguntei mais enfático.
--- Na verdade, ninguém sabe ao certo como mágica funciona... mas nós temos algumas teorias. Uma delas é a seguinte - a gente não faz mágica. Seres humanos não podem fazer mágica por natureza, se você diz por mágica a alteração das leis físicas. Nós somos completamente 100% incapazes de mover uma única coisa sequer do seu rumo de forma sobrenatural. Quem deseja... fazer mágica... faz contratos. Pactos. Com entidades de outros planos. 
--- Entidades? 
--- Isso. Anjos, demônios. Chame do que quiser. Elas é que podem fazer mágica, como você chama. Quem quer, apenas pede emprestado um pouco este poder. Ou pelo menos acreditamos ser assim. 
--- Quem quer? Quer dizer, você não faz?
--- Não. -- disse Ralph, bebendo um pouco do café preto que havia requisitado. -- Eu só estudo. Aprendo. Mexo, mas não deixo o fogo me queimar. Existe entretanto, uma outra forma de magia, que pode nos dar poderes, se você quiser chamar assim. Desenvolver os poderes da mente. Este tipo de magia, é possível a seres como nós. 
--- Certo. 
Ele terminou de tomar o café, e conversamos mais. Muitas perguntas foram respondidas ali. Eu levantei e andei com ele. Sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. Fiquei com o seu cartão, que apontava para uma editora jornalística para a qual ele trabalhava, no Canadá. 
--- O que você vai fazer agora? 
--- Não sei ainda. -- respondi.
--- Sabe, se quiser, a gente pode conseguir um lugar para você trabalhar conosco. 
--- No jornal? 
--- É. 
--- Obrigado. Mas por enquanto eu vou tentar buscar meu caminho.
--- Justo -- Ralph respondeu. -- Saudações. Tenha cuidado. 
--- Terei. 
Então nos separamos. Ele desceu a rua, e sumiu na multidão. Continuei minha vida errante, fazendo bicos nas cidades para as quais viajava. Meu lema sempre foi 'Sapere Aude', que incidentalmente devia ser bem parecido com o dele. Ambos investigadores, da vida e do que está oculto. Estas são minhas memórias a respeito do meus primeiros encontros conscientes com o sobrenatural, até o dia em que minha vida - como jornalista de um renomado jornal, que procurava nada mais nem menos que a normalidade - acabou se esfacelando em mil pedaços.

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Imagem no topo do texto não é de minha propriedade.  Foi tirada deste link aqui.

sábado, 7 de julho de 2012

[Conto] Oportunidades - parte 2


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        --- Como está com o Mark? Ele vai lá em casa hoje? Eu vi vocês trocando olhares, Trish.
--- Sim! -- Trish ficou com vergonha – o que podemos comprar para logo mais? Vamos levar bolo de maçã e nuggets? Ele gosta de nuggets, ele me disse. Isso e os Toronto Maple Leafs... nossa, ele fala nisso a cada cinco segundos, sinceramente, você tem que ver. Ele me convidou para ir ao jogo com ele amanhã. Você vem?
--- Eu não quero ficar sempre segurando vela no seu relacionamento, Tri, de jeito nenhum, não vou não.
--- Deixa de ser boba, Lu!
As duas esperavam na fila do caixa, para pagar. Luana riu e olhou fora da lanchonete. Perto da janela passava um homem. Ela sentiu o chão ficar distante. Seu coração acelerou. Lá fora, passava um homem de preto, com as mãos dentro do casaco. E era Tibério.
--- É ele sim.
--- Ahn? Que foi amiga? -- Trish se virou para olhar pelos vidros do estabelecimento, mas só via um monte de pessoas passando.
--- Trish, vai pagando a conta, tá? Lá fora eu te pago.
Luana apressou o passo para fora da lanchonete, e gritou o nome de Tibério. Ele se voltou, surpreso.
--- Tibério! Lembra de mim?
O homem ficou ali a olhar para ela, até que lembrou.
--- Nossa... Luana? Putz... Quanto tempo!
--- É mesmo! Como você ta?! – ela perguntou.
--- Estou bem, é que tive férias do trabalho. E quis sair numa excursão a passeio, e vim visitar o Canadá, nunca estive aqui antes.
Os dois agora eram trocavam sorrisos, mesmo que os do rapaz fossem mais contidos e diminutos. Mas Luana nem percebeu, pois estava eufórica e entretida em sua conversa: “Onde você está morando?”, “Está com mais alguém aqui?”, “Há quanto tempo, hein?”, foram algumas das perguntas que, como outras, surgiram naquela conversa. Até que Trish chegou.
--- Esta é a minha amiga, Trish. Trish este é o Tibério.
--- Olá, tudo bem? – o homem falou.
--- Tudo. Você é brasileiro também?
--- Sim, sou.
--- Interessante – disse Trish – gosto de brasileiros, eles são alegres. Luana me conta cada coisa de lá. Sou doida pra visitar.
--- Que bom, o Brasil pode ser um lugar bem interessante mesmo.
Eles conversaram ainda um pouco ali, na noite fria.
--- Olha, Tibério, está ficando meio frio aqui, mas assim, nós vamos receber uma pessoa em nosso apartamento, um colega do trabalho. Você quer vir, também? -- Luana perguntava com vergonha, e seu rosto branco ficou um pouco avermelhado.
--- Ah, eu não sei... -- Tibério passou a mão no pescoço.
--- Venha, vai ser bacana... -- Luana insistiu.
--- Eu...bom... não sei..
--- Ah que coisa, você vai, vamos. ---  Trish pegou o braço de Tibério e puxou, com delicadeza.
--- Bom, já que vocês insistem, não é mesmo? -- Tibério brincou, e Luana riu.
Esperavam no apartamento, a chegada de Mark. Tibério ficou vendo televisão na sala, enquanto as duas amigas ficaram na cozinha, preparando os últimos detalhes do jantar. Alcovitavam enquanto isso, Luana contando para Trish tudo sobre a relação dela e Tibério.
--- Nossa, e ele te pediu em casamento, já? – perguntou Trish.
--- Sim. Algumas vezes... – respondeu Luana.
--- Algumas vezes?
--- E uma delas ele chegou a conversar com meu pai sobre isso.
--- Este rapaz gosta muito de ti.
--- Não sei se ele ainda tem o mesmo sentimento...
--- É só conversar com ele, amiga. Vai lá.
--- Agora? – perguntou Luana.
--- É. Eu preparo o resto, vai lá! Pergunta se ele tomar vinho. A gente tem vinho? Tá aqui, achei, ó, leva lá!
--- Tá... – Luana saiu um pouco na porta, e quase foi empurrada por Trish, que depois fechou a porta da cozinha.
Tibério olhou.
--- Oi... – Luana disse.
--- Oi... – ele respondeu.
--- Você quer vinho?

*****
Os dois conversaram por uma meia hora ou mais, até que Mark apertou a campainha, e se reuniram os quatro a conversar, na sala. Três garrafas de vinho foram esvaziadas, junto com alguns petiscos, até que os quatro se reuniram para jantar. A refeição correu bem, como o resto da noite. Tibério olhava para Luana disfarçadamente. Trish e Mark também freqüentemente trocavam olhares e risos. Depois do jantar, se reuniram na pequena sala, e ouviram histórias de Tibério e de Luana sobre o Brasil. Ao final, Mark convidou todos para verem os Maple Leafs jogarem, no dia seguinte sábado. Todos acabaram aceitando. Luana sentia-se realmente feliz, enquanto segurava o braço de Tibério. Eles combinaram de se encontrar no final da tarde, na lanchonete e depois irem ao jogo. Aquela noite ficou na memória de todos.

*****

No outro dia, as duas amigas entraram na cafeteria. Esperaram um pouco até que Mark surgiu. Esperaram ainda uma meia-hora, mas o horário do jogo estava próximo. Infelizmente, Tibério não havia ainda chegado.
--- Droga, com tanta coisa boa, nem me lembrei de pegar o telefone dele, ontem... – Luana suspirou.
--- Temos que ir agora, se quisermos chegar a tempo. -- disse Mark.
--- É... – Luana suspirou novamente. Estava visivelmente entristecida. Já desciam a rua, quando, finalmente, Tibério chamou.
--- Luana!
--- Tibério, a gente já estava indo sem você! Lembrei-me que não tínhamos seu telefone celular. Quase que a gente não se via mais!
--- Pois é. Mas ia ser ruim, né?
--- Ia sim – Luana concordou.
Conversaram sobre vários assuntos enquanto pegavam o metrô que ia para o estádio Rogers Centre, no centro de Toronto. Iam todos bem animados, enquanto Mark contava piadas e cantava e dançava com a camisa do Maple Leafs. Em um dado momento, Luana passou, mais uma vez, o braço pelo de Tibério. Estava frio, e o gesto parecia dizer que ela queria apenas se aquecer. Mark e Trish observaram, e fizeram comentários a respeito do novo casal, e todos riram bastante, e acabaram tirando algumas fotos. O jogo correu bem, e Luana e Tibério aproveitaram para conversar mais sobre seus interesses comuns, sobre projetos de vida, e sobre idéias e pensamentos que os dois tinham.
--- Você tem algum plano, Tibério?
--- Plano?
--- Isso, plano, de vida... você está no Canadá até somente a semana que vem. E daqui, você volta pra França? Para onde vai?
--- Eu pretendo voltar para... casa.
--- Casa?
--- É... casa.
--- Então, vai voltar pra São Paulo?
Tibério sorriu.
--- E você, pretende fazer o que?
--- Ah, eu – começou Luana – eu gosto daqui. Mas às vezes, sinto que me falta algo. Algo que aparentemente, eu não vou conseguir encontrar aqui.
--- Entendo...
--- Tibério, você lembra... Há uns sete anos atrás, quando você foi pra França? Eu... Hoje eu... -- quando ia falando isso, o Maple Leafs fez um ponto no jogo, e todos gritaram muito. Mark quase pulou na cadeira da frente. Trish segurou-o pela camisa. Todos riam bastante.
Quando tudo se acalmou, Luana olhou para Tibério. Os dois se olharam. E se beijaram. No outro dia, Luana e Tibério marcaram de se encontrar para passear pela cidade, ver alguns pontos turísticos. Depois disso, acabaram jantando juntos. Neste dia, Tibério acabou indo passar a noite com Luana, em seu apartamento.
*****
No outro fim de semana, marcaram de se encontrar em um restaurante. Iriam jantar e conversar. Provavelmente a conversa que definiria o futuro dos dois. Ela tinha se preparado para este jantar desde que eles haviam se reencontrado. Trish havia dedicado todas as horas de folga para ouvir a amiga, e fazer com que tudo corresse certo, mesmo que significasse que as duas não ficariam mais juntas. Mesmo que isso quisesse dizer que Luana iria para o Brasil, e as duas não fossem mais se ver. No dia anterior, as duas conversaram sobre isso, e se abraçaram. Chegaram a soltar algumas lágrimas. Mas logo disfarçaram. Deixariam o choro verdadeiro para o dia em que isso se tornasse realidade. Chegaram juntos ao restaurante, foram bem atendidos. A conversa fluiu, falaram de família, planos, filhos, casamento, trabalho, dinheiro, amor, desejos, sonhos.
--- Eu nunca deveria ter deixado você ir embora sem mim, naquele dia. Mas eu sei. Eu sei que eu fui muito indecisa, e isto deve ter sido difícil pra você.
--- Ahn... é...
--- Eu... sei que foi. Hoje eu sei que foi. Eu não sei por que não conseguia me decidir. Você sempre pareceu o cara certo, mas eu tinha tanta dúvida... -- Luana falou. -- Me perdoe...
--- Não tem problema. -- Tibério pegou na mão de Luana. Ela sentiu um pouco de frio.
Eles serviram-se novamente de vinho. Conversaram mais um pouco. Por fim, retornavam e logo estavam na frente do apartamento. Beijaram-se.
--- Agora estamos juntos. -- disse Luana.
Luana havia feito vários planos. Tibério concordou com alguns. Ela estava muito animada. Falava o tempo todo. Finalmente estavam juntos. Ela sentia isso e estava feliz. De alguma maneira, ela havia encontrado aquela pessoa com quem deveria passar o restante da sua vida.
--- Eu gostaria de ter conhecido você assim, e você teria ido morar na França comigo. Talvez a gente ainda estivesse morando lá. Talvez já tivéssemos até um garotinho, ou uma garotinha. Um cachorro também.
--- Eu quero três filhos!
--- Três? Nossa!
--- É! Três!
Tibério riu. Luana ficou envergonhada. Ele continuou:
--- Mas é sério, se você tivesse ido, talvez nossa vida tivesse sido diferente. Talvez...
--- É, mas... mas agora temos nossa chance! Daqui pra frente.
Tibério sorriu levemente. Luana vislumbrou uma certa tristeza em seu olhar.
--- Triste porque você vai ter que ir, amanhã?
--- É, de certa maneira...
--- Ah, mas agora é só o começo. Você volta e esta semana a gente vai se ligar e vê o que faz. Se der, de repente... Até o fim do mês... Eu já estou com você de novo, no Brasil.
--- Sim, isto seria bom. Quero agradecer-te pela companhia.
--- De nada...
--- Bom, já está meio tarde, melhor você dormir.
--- Tá bom...
Os dois se beijaram novamente.
--- Boa viagem amanhã, tá?
--- Tá bom.
Luana subiu as escadas, lépida. Na frente da porta do prédio, acenou para Tibério. Colocou as chaves na porta e começou a girar.
--- Melhor táxi para pegar hoje é ali na avenida, Ti.
--- Ah, tudo bem, eu vou andando pra casa hoje.
--- Onde fica este hotel em que você está mesmo?
--- É perto da loja de doces que vende molho de maçã, no fim da avenida. Sabe onde é?
--- Sim... Adoro aquele molho! Sei onde é sim. -- ela riu.
A garota abriu a porta. Tibério sorriu. Acenaram novamente e ele tomou seu caminho enquanto ela fechava a porta. Ele foi andando. Gostava de andar, nestes dias de decisões difíceis, de reencontros e assuntos inacabados, principalmente na chuva. E hoje, o céu estava pronto para um temporal.
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(Continua...) (Parte 1 aqui) (Imagem utilizada não é de minha propriedade, foi encontrada neste site. Se você é o artista dono e não quer ela publicada aqui sem o seu consentimento, me avise. Meu contato está no canto esquerdo do blog).

segunda-feira, 25 de junho de 2012

[Conto] Oportunidades - parte 1


Este conto é parte da coletânea do livro Arquivos Soturnos, de minha autoria. Será dividido em 3 partes.

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OPORTUNIDADES
Parte 1 


Era uma noite enevoada e chuvosa. Ele apressou o passo, cobrindo a cabeça com o gorro do blusão e olhou para o céu. A lua estava alta e enorme, fulgurante em seu clarão frio. Um carro passou do seu lado, levantando filetes de água. Ele continuava apressando o passo. Na sua cabeça, mil questões. Foi quando viu, em cima, no céu, algo que passou voando por ele, indo parar no poste à frente. Era uma figura esguia, negra, e ele não conseguiu olhar. Não conseguia, e nem queria. E nem se importava. Tinha problemas pessoais a resolver. Foi somente depois, muito depois, que se lembrou de ter visto aquele ser ali. Ali a figura ficou, como um abutre, olhando-o. E ele passou. 

Finalmente, a casa dela, ele pensou. Seus pés cansados não conseguiam subir a rampa que levava até ela. Estava frio, e a chuva caía forte, e ele sentiu que podia desmaiar. Olhou para trás, na procura pelo abutre que o seguira. Nada. A rua deserta. Ele alcançou o telefone no bolso, e discou o número da garota. Ela viu o número dele no visor de seu celular. A mãe na sala, com o roupão, fazia cara de desgosto. 
--- Mãe, eu vou falar com ele, tá?
--- Você arranjou foi um problema minha filha. Pobre coitada.
A filha fez bico, mas abriu a porta. Viu, perto da entrada, ele, Tibério. 
--- Oi, ahn... me desculpa, amor...
--- Olha Tibério... -- ela ia começar, mas estava muito frio, e ela decidiu convidá-lo para entrar. 
Ele sentou-se no sofá, perto da porta. Ela foi até outro sofá, longe dele. Os dois ficaram em silêncio, por uns momentos. Ele sentia vergonha da situação. Ela sentia vergonha dele.
--- Olha, Luana... eu... 
Ela fechou os olhos um segundo. E escutou o que ele dizia. Depois que ele falou o que queria, ela começou.
--- Tibério, não sei mais o que eu faço, tá? Acordar no meio da noite com uma ligação sua, dizendo que tem que me ver não é exatamente a coisa mais romântica do mundo mais. Minha mãe tá achando que você não tem mais jeito, e eu, francamente, to cansando de ter que entender certas coisas suas! 
--- Eu sei... eu sei que é difícil entender, mas você tem que perceber que eu...eu te amo. Quero ficar com você. 
--- Eu sei... mas é complicado... 
--- A vida é complicada Luana. Mas se você não se decidir, fica tudo mais complicado. A gente faz o nosso destino também. Já conversamos sobre isso. Eu gosto tanto de ti, vou te tratar tão bem. Porque nós... Não podemos ficar juntos? 
--- Não é assim. Não é simples assim.
--- Mas, então porque você não me diz por que não é tão simples? 
A garota, de seus 23 anos, ficou calada. 
--- Eu gosto muito de você, e mesmo assim... 
A garota continuou calada. 
--- Eu sei que você tem muita coisa pra resolver. Mas porque você não resolve? Já te conheço há tanto tempo. 
--- Eu sei, mas tenho que conversar... ver como eu resolvo isto... 
--- Porque esta indecisão toda? Porque não se jogar de cabeça na vida? A vida passa enquanto você está indecisa. Quando você olhar pra trás, já passaram dez, vinte anos. 
--- Eu sei... -- ela respondeu breve, depois, silenciou.
Ele passou a mão na cabeça.
--- Bom... está tarde, mesmo. Eu vou pra casa, mas amanhã, você sabe, que eu vou viajar. Eu vou iniciar uma vida de trabalho, na França, e eu gostaria que você viesse, iríamos juntos. Mas, você decide... ou melhor, nem decide... -- ele se levantou lentamente, e saiu pela porta, não sem antes olhar para a garota Luana, de quem havia gostado durante aqueles anos. Agora, depois de tanto tempo, ao olhar para ela, sentada em um sofá da sala, mastigando uma decisão feita de goma de mascar, por tanto tempo, ficou a se perguntar porque, afinal, sentira algo por ela. 

Sem conseguir responder, fechou a porta e saiu andando. Nestes dias, de decisões difíceis, de reencontros e assuntos inacabados, ele gostava de andar. Principalmente na chuva. 
No outro dia, arrumou as coisas, abraçou a família e seguiu para o aeroporto. As dificuldades normais. Muita gente nas ruas, engarrafamento. São Paulo era uma cidade grande, e ficava maior a cada dia, pensava ele. No saguão fez o check-in. Carregou sua maleta até uma lanchonete da área de alimentação. Pediu um café com um pedaço de bolo de chocolate. Ficou ali, enrolando. O café lhe desceu logo, mas o bolo ficava rodando em sua boca. Não estava com fome. Olhava para os lados, incessantemente, uma parte de si inconformada, esperando pela garota, uma parte instintiva de si, que já estava começando a lhe irritar. Ela não chegava. Viu uma criança passar com um balão. Ela olhou para ele. Era um menino de três anos, no máximo. Ofereceu o balão para Tibério. O menino correu, e Tibério ficou com o balão branco. O alarme do celular lhe avisou do horário do embarque. Ele pegou a maleta, e, levando o balão branco, sem saber por que, se dirigiu ao portão. 

*****

--- Poxa, me fala, quer dizer que ele fez isso?
--- Sim, ele era casado, você acredita nisso? 
--- Nossa Lu.Você está sem sorte ein? 
--- É... nem consigo acreditar. Mas foi divertido. Já estou começando a me divertir com isso. Quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cachorro. --- Luana começou a rir, juntamente com sua amiga. Ela morava, já há alguns anos, na cidade de Toronto, com sua amiga Trish, saindo do trabalho. Havia alterado a cor do seu cabelo, agora avermelhado, além de estar um tanto quanto diferente, pela própria passagem do tempo. Estavam perto da “Perky´s Coffee House”, uma lanchonete em que gostavam de passar depois do expediente. Ficaram ali, conversando por um tempo. Nestas conversas, geralmente Trish reclamava dos colegas de trabalho.
--- Mas é um saco aquele cara! Eu queria dar um murro na cara dele. Ah, se eu pudesse!
Luana gargalhava dos problemas da amiga. As duas trabalhavam em uma agência de viagem que tinha mais oito funcionários. Mark era o rapaz de quem Trish reclamava.
--- Eu odeio ele!
--- Trish, sabe o que eu ouvi outro dia? Que o Mark gosta de você.
--- O que? De onde você tirou isso? Isso não é verdade!
--- Mas é!
Trish ficou um pouco titubeante, como estivesse ligando os pontos em sua cabeça.  
--- Será?
--- Acho que é sim, viu. 
--- Porque você não me contou antes? 
--- Eu fiquei sabendo ontem, e ontem você saiu mais cedo e só te encontrei em casa, mas você já estava dormindo quando eu cheguei.
--- Mas... o Mark? Eu sempre o achei um retardado! Quer dizer, antes não, eu o achava até meio bonitinho... 
Luana riu mais uma vez da amiga. Pediram dois capuccinos. Curtiram o fim de tarde e seguiram ambas até uma casa noturna. Encontraram mais colegas de trabalho e conhecidos. A noite estava boa para duas mulheres jovens e solteiras, e depois de alguns drinques, e algumas paqueras, elas deixaram o local, e se dirigiram para casa. Pegaram o metrô. 
--- Eu adoro aquele DJ! Lembra daquele show do Tisco, ano passado, aquele de quando eu fui pra Manhattan, lembra? 
--- Lembro, você trouxe até daqueles copos que brilham pra gente beber umas misturas legais. 
Elas riram e conversaram ainda sobre diversas urbanidades, até que o metrô parou na estação que estavam aguardando, e se dirigiram para a residência que compartilhavam. Assim que chegaram nesta, cada uma foi para seu quarto. Ainda se encontraram na cozinha, para tomar os remédios contra a ressaca certa do dia seguinte. Depois, finalmente, dormiram. E antes de dormir, Luana pensou um pouco na sua vida. Pensou na sua família, e lembrou-se de Tibério. Sentia-se um pouco solitária ali, naquela noite fria, quis lembrar daqueles que já demonstraram uma vontade de estar perto dela, e lembrou-se daquele rapaz. Como estaria ele? Fazia quanto tempo? Seis, talvez sete anos que o viu pela última vez? Talvez fosse bom mandar um alô, perguntar como ele estava? Mas como, nem tinha mais notícias dele. Queria tanto ter escolhido estar ao seu lado hoje. Porque, no passado, aquela escolha fora tão difícil? Se fosse hoje... 
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(Continua...)

sábado, 16 de junho de 2012

Os Altos Mistérios - por Norman D. Livergood (parte 1)


Desde o início da história registrada, são mencionados ensinamentos sagrados sobre o renascimento dos seres humanos em uma Consciência Superior. Na literatura clássica, a referência é feita freqüentemente a "os mistérios" (ta musteria), que se tornou o termo técnico para ritos secretos e métodos conhecidos e praticados somente pelos sacerdotes /hierofantes que haviam sido iniciados. 

Esses ensinamentos sagrados foram encontrados no impérios da Índia, Egito, Pérsia, Grécia e Roma. Os Mistérios eram ensinados nas escolas especialmente criadas pelos hierofantes que desenvolveram técnicas extraordinárias para ajudar os candidatos selecionados a atingir um estado superior de consciência. 

É difícil para nós entender quem esses hierofantes eram, porque a nossa concepção do sacerdócio é diferente em relação àqueles tempos. No mundo ocidental, um padre é apenas um clérigo que estuda as escrituras de sua religião, e lidera aqueles que seguem seus dogmas. O conceito de sacerdócio degenerou ao ponto em que alguns sacerdotes se conformam totalmente à ideologia de um Estado secular, mesmo se o estado, como no caso da Alemanha nazista, é uma tirania fascista. 

Na tradição do Mistério, o título de "hierofante" indicou que o padre tinha se experimentado a iniciação em todos os níveis dos Mistérios. O sacerdócio do Mistério, portanto, funcionava como uma elite fechada cujos conhecimentos e práticas eram realizadas em segredo. 

Junto com o conhecimento preciso dos ensinamentos e dos ritos, hierofantes eram bem versados ​​em astronomia, engajando-se na observação, investigação, análise e registro de fenômenos solares, lunares e estelares. Hierofantes também eram matemáticos qualificados e tinham conhecimento de ciências arquitetura e engenharia. Eles eram curandeiros com habilidades especiais em medicina e, eventualmente, cirurgia. Eles também eram historiadores, já que os registros de cada civilização foram salvaguardados nos templos. 

Os cultos greco-romanos públicos, celebrando divindades cívicos e nacionais, tinha caído em descrédito geral e em seu lugar surgiram cultos secretos abrir apenas para aqueles que voluntariamente sofriam preparações especiais. A maioria dos antigos deuses greco-romanos eram adorados nos cultos dessa natureza. O mais famoso foram os mistérios celebrados em Elêusis, sob o patrocínio e controle do Estado ateniense, que comemora a adoração de Deméter e sua filha Perséfone. 

As três mais antigas tradições de mistério eram os Mistérios Órficos, associados com o nome de Dionísio, o culto egípcio de Ísis e Serapis, e o Mitraísmo Persa, que no século III d.C era muito popular por todo o império Romano. 

"É somente quando chegamos nos primeiros cinco ou seis séculos a.C, e os prósperos dias da Grécia e de Alexandria, que obtemos um conhecimento preciso da existência das Escolas de Mistérios, e de alguns de seus ensinamentos mais detalhados. Este período está associado a nomes como Anaxágoras, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles e, mais tarde, antes do domínio do cristianismo eclesiástico suprimisse a Gnose, e tivesse mergulhado o mundo ocidental na escuridão e horrores da Idade Média, temos nomes como Fílon, o Judeu, Clemente de Alexandria, Valentino, Orígenes, Proclus, Basilides, Jâmblico, e Plotino, todos falando abertamente da existência dos Mistérios e Escolas de Mistérios, alegando iniciação nelas, e abertamente ensinando tanto delas como era permitido publicamente. " William Kingsland. A Gnosis ou Sabedoria Antiga nas Escrituras Cristãs.


A tradição dos Mistério era composta por dois níveis:
Os Mistérios menores ou públicos; 
Os mistérios esotéricos mais elevados.

Todos os templos de Mistérios eram arquitetonicamente dividido em duas seções para os Mistérios inferiores e superiores. 

Os Mistérios Menores

Ao nível do público, os ensinamentos de mistério eram sugestivos e simbólicos, ao invés de didática ou de iniciação. O principal objetivo desses rituais públicos era apontar ao devoto o sentido de uma união mística com a divindade e oferecer uma convicção da imortalidade. O iniciado participava misticamente na passagem da divindade através da morte para a vida e essa união com o salvador-deus tornou-se a promessa da sua própria passagem através da morte para uma vida eterna além. 

As celebrações eram precedidas por rituais de purificação através do qual todos os iniciados tinham que passar. Os rituais próprios eram principalmente um tipo de drama religioso, constituído por representações cênicas que ilustram a experiência da divindade ou divindades, referindo-se velhos mitos - alegorias das forças criativas da Natureza e imortalidade da humanidade. 

Estes ritos eram combinados com a recitação de de fórmulas místicas proferidas pelo hierofante. O ponto culminante era a Epoptéia, ou visão plena, quando o hierofante revelava certos objetos sagrados para a assembléia. 



Os Mistérios Maiores

Os Mistérios Maiores eram exclusivos e secretos. Somente iniciados selecionados pelos hierofantes poderia mparticipar dos ritos. Conhecimento do que foi dito e feito era tão sagrado que era considerado um sacrilégio divulgá-lo para os não iniciados.

O fenômeno de iniciação era (e é) muito diferente do que a maioria das pessoas assume que ele seja. 

O objetivo da iniciação nos mistérios mais altos era relaxar o vínculo pelo qual o espírito é mantido pelo corpo:
Para permitir o espírito reunir-se com a Consciência Superior; 
Para liberar o espírito do feitiço em que é preso em cativeiro no corpo;
Para trazer o corpo e a mente à quietude; 
Para liberar a Consciência Superior a partir do fascínio da consciência do ego; 
Para reunir o espírito com a sua universalidade perdida; 
Para separar os sentimentos mais elevados sutis dos sentimentos sensoriais brutos; 
Para libertar o espírito de quaisquer equívocos; 
Para permitir que o espírito de viajar para reinos mais elevados;

Para atingir este objectivo é necessário:
     O iniciado buscando ajuda do hierofante; 
     Fé na possibilidade de realizar este objectivo; 
     Desejo ardente e consistência de propósito; 
     Humildade na realização de tal esforço importante;

Os processos envolvidos incluem:
Extasiar os sentidos através de:
     As sugestões de resignação do hierofante;
     O iniciado olhando para um objeto especificado;
     O hierofante e iniciante conversando com o espírito interno;
Definir o quadro mental como a experiência do momento da morte, seguido de renascimento;
O hierofante manipular o campo de força com as mãos;
    Para ativar o campo de força psíquica dentro do qual o iniciado reside (esta força da vida psíquica é semelhante na concepção dos campos gravitacionais e eletromagnéticos em física);
      Trazer todas as facetas desta Força Vital em interação harmoniosa e homeostase;
A Psique do hierofante liderando a psique do iniciante através de ações, sugestões de ações, sentimentos e pensamentos.

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[Continua]

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