segunda-feira, 25 de junho de 2012

[Conto] Oportunidades - parte 1


Este conto é parte da coletânea do livro Arquivos Soturnos, de minha autoria. Será dividido em 3 partes.

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OPORTUNIDADES
Parte 1 


Era uma noite enevoada e chuvosa. Ele apressou o passo, cobrindo a cabeça com o gorro do blusão e olhou para o céu. A lua estava alta e enorme, fulgurante em seu clarão frio. Um carro passou do seu lado, levantando filetes de água. Ele continuava apressando o passo. Na sua cabeça, mil questões. Foi quando viu, em cima, no céu, algo que passou voando por ele, indo parar no poste à frente. Era uma figura esguia, negra, e ele não conseguiu olhar. Não conseguia, e nem queria. E nem se importava. Tinha problemas pessoais a resolver. Foi somente depois, muito depois, que se lembrou de ter visto aquele ser ali. Ali a figura ficou, como um abutre, olhando-o. E ele passou. 

Finalmente, a casa dela, ele pensou. Seus pés cansados não conseguiam subir a rampa que levava até ela. Estava frio, e a chuva caía forte, e ele sentiu que podia desmaiar. Olhou para trás, na procura pelo abutre que o seguira. Nada. A rua deserta. Ele alcançou o telefone no bolso, e discou o número da garota. Ela viu o número dele no visor de seu celular. A mãe na sala, com o roupão, fazia cara de desgosto. 
--- Mãe, eu vou falar com ele, tá?
--- Você arranjou foi um problema minha filha. Pobre coitada.
A filha fez bico, mas abriu a porta. Viu, perto da entrada, ele, Tibério. 
--- Oi, ahn... me desculpa, amor...
--- Olha Tibério... -- ela ia começar, mas estava muito frio, e ela decidiu convidá-lo para entrar. 
Ele sentou-se no sofá, perto da porta. Ela foi até outro sofá, longe dele. Os dois ficaram em silêncio, por uns momentos. Ele sentia vergonha da situação. Ela sentia vergonha dele.
--- Olha, Luana... eu... 
Ela fechou os olhos um segundo. E escutou o que ele dizia. Depois que ele falou o que queria, ela começou.
--- Tibério, não sei mais o que eu faço, tá? Acordar no meio da noite com uma ligação sua, dizendo que tem que me ver não é exatamente a coisa mais romântica do mundo mais. Minha mãe tá achando que você não tem mais jeito, e eu, francamente, to cansando de ter que entender certas coisas suas! 
--- Eu sei... eu sei que é difícil entender, mas você tem que perceber que eu...eu te amo. Quero ficar com você. 
--- Eu sei... mas é complicado... 
--- A vida é complicada Luana. Mas se você não se decidir, fica tudo mais complicado. A gente faz o nosso destino também. Já conversamos sobre isso. Eu gosto tanto de ti, vou te tratar tão bem. Porque nós... Não podemos ficar juntos? 
--- Não é assim. Não é simples assim.
--- Mas, então porque você não me diz por que não é tão simples? 
A garota, de seus 23 anos, ficou calada. 
--- Eu gosto muito de você, e mesmo assim... 
A garota continuou calada. 
--- Eu sei que você tem muita coisa pra resolver. Mas porque você não resolve? Já te conheço há tanto tempo. 
--- Eu sei, mas tenho que conversar... ver como eu resolvo isto... 
--- Porque esta indecisão toda? Porque não se jogar de cabeça na vida? A vida passa enquanto você está indecisa. Quando você olhar pra trás, já passaram dez, vinte anos. 
--- Eu sei... -- ela respondeu breve, depois, silenciou.
Ele passou a mão na cabeça.
--- Bom... está tarde, mesmo. Eu vou pra casa, mas amanhã, você sabe, que eu vou viajar. Eu vou iniciar uma vida de trabalho, na França, e eu gostaria que você viesse, iríamos juntos. Mas, você decide... ou melhor, nem decide... -- ele se levantou lentamente, e saiu pela porta, não sem antes olhar para a garota Luana, de quem havia gostado durante aqueles anos. Agora, depois de tanto tempo, ao olhar para ela, sentada em um sofá da sala, mastigando uma decisão feita de goma de mascar, por tanto tempo, ficou a se perguntar porque, afinal, sentira algo por ela. 

Sem conseguir responder, fechou a porta e saiu andando. Nestes dias, de decisões difíceis, de reencontros e assuntos inacabados, ele gostava de andar. Principalmente na chuva. 
No outro dia, arrumou as coisas, abraçou a família e seguiu para o aeroporto. As dificuldades normais. Muita gente nas ruas, engarrafamento. São Paulo era uma cidade grande, e ficava maior a cada dia, pensava ele. No saguão fez o check-in. Carregou sua maleta até uma lanchonete da área de alimentação. Pediu um café com um pedaço de bolo de chocolate. Ficou ali, enrolando. O café lhe desceu logo, mas o bolo ficava rodando em sua boca. Não estava com fome. Olhava para os lados, incessantemente, uma parte de si inconformada, esperando pela garota, uma parte instintiva de si, que já estava começando a lhe irritar. Ela não chegava. Viu uma criança passar com um balão. Ela olhou para ele. Era um menino de três anos, no máximo. Ofereceu o balão para Tibério. O menino correu, e Tibério ficou com o balão branco. O alarme do celular lhe avisou do horário do embarque. Ele pegou a maleta, e, levando o balão branco, sem saber por que, se dirigiu ao portão. 

*****

--- Poxa, me fala, quer dizer que ele fez isso?
--- Sim, ele era casado, você acredita nisso? 
--- Nossa Lu.Você está sem sorte ein? 
--- É... nem consigo acreditar. Mas foi divertido. Já estou começando a me divertir com isso. Quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cachorro. --- Luana começou a rir, juntamente com sua amiga. Ela morava, já há alguns anos, na cidade de Toronto, com sua amiga Trish, saindo do trabalho. Havia alterado a cor do seu cabelo, agora avermelhado, além de estar um tanto quanto diferente, pela própria passagem do tempo. Estavam perto da “Perky´s Coffee House”, uma lanchonete em que gostavam de passar depois do expediente. Ficaram ali, conversando por um tempo. Nestas conversas, geralmente Trish reclamava dos colegas de trabalho.
--- Mas é um saco aquele cara! Eu queria dar um murro na cara dele. Ah, se eu pudesse!
Luana gargalhava dos problemas da amiga. As duas trabalhavam em uma agência de viagem que tinha mais oito funcionários. Mark era o rapaz de quem Trish reclamava.
--- Eu odeio ele!
--- Trish, sabe o que eu ouvi outro dia? Que o Mark gosta de você.
--- O que? De onde você tirou isso? Isso não é verdade!
--- Mas é!
Trish ficou um pouco titubeante, como estivesse ligando os pontos em sua cabeça.  
--- Será?
--- Acho que é sim, viu. 
--- Porque você não me contou antes? 
--- Eu fiquei sabendo ontem, e ontem você saiu mais cedo e só te encontrei em casa, mas você já estava dormindo quando eu cheguei.
--- Mas... o Mark? Eu sempre o achei um retardado! Quer dizer, antes não, eu o achava até meio bonitinho... 
Luana riu mais uma vez da amiga. Pediram dois capuccinos. Curtiram o fim de tarde e seguiram ambas até uma casa noturna. Encontraram mais colegas de trabalho e conhecidos. A noite estava boa para duas mulheres jovens e solteiras, e depois de alguns drinques, e algumas paqueras, elas deixaram o local, e se dirigiram para casa. Pegaram o metrô. 
--- Eu adoro aquele DJ! Lembra daquele show do Tisco, ano passado, aquele de quando eu fui pra Manhattan, lembra? 
--- Lembro, você trouxe até daqueles copos que brilham pra gente beber umas misturas legais. 
Elas riram e conversaram ainda sobre diversas urbanidades, até que o metrô parou na estação que estavam aguardando, e se dirigiram para a residência que compartilhavam. Assim que chegaram nesta, cada uma foi para seu quarto. Ainda se encontraram na cozinha, para tomar os remédios contra a ressaca certa do dia seguinte. Depois, finalmente, dormiram. E antes de dormir, Luana pensou um pouco na sua vida. Pensou na sua família, e lembrou-se de Tibério. Sentia-se um pouco solitária ali, naquela noite fria, quis lembrar daqueles que já demonstraram uma vontade de estar perto dela, e lembrou-se daquele rapaz. Como estaria ele? Fazia quanto tempo? Seis, talvez sete anos que o viu pela última vez? Talvez fosse bom mandar um alô, perguntar como ele estava? Mas como, nem tinha mais notícias dele. Queria tanto ter escolhido estar ao seu lado hoje. Porque, no passado, aquela escolha fora tão difícil? Se fosse hoje... 
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(Continua...)

sábado, 16 de junho de 2012

Os Altos Mistérios - por Norman D. Livergood (parte 1)


Desde o início da história registrada, são mencionados ensinamentos sagrados sobre o renascimento dos seres humanos em uma Consciência Superior. Na literatura clássica, a referência é feita freqüentemente a "os mistérios" (ta musteria), que se tornou o termo técnico para ritos secretos e métodos conhecidos e praticados somente pelos sacerdotes /hierofantes que haviam sido iniciados. 

Esses ensinamentos sagrados foram encontrados no impérios da Índia, Egito, Pérsia, Grécia e Roma. Os Mistérios eram ensinados nas escolas especialmente criadas pelos hierofantes que desenvolveram técnicas extraordinárias para ajudar os candidatos selecionados a atingir um estado superior de consciência. 

É difícil para nós entender quem esses hierofantes eram, porque a nossa concepção do sacerdócio é diferente em relação àqueles tempos. No mundo ocidental, um padre é apenas um clérigo que estuda as escrituras de sua religião, e lidera aqueles que seguem seus dogmas. O conceito de sacerdócio degenerou ao ponto em que alguns sacerdotes se conformam totalmente à ideologia de um Estado secular, mesmo se o estado, como no caso da Alemanha nazista, é uma tirania fascista. 

Na tradição do Mistério, o título de "hierofante" indicou que o padre tinha se experimentado a iniciação em todos os níveis dos Mistérios. O sacerdócio do Mistério, portanto, funcionava como uma elite fechada cujos conhecimentos e práticas eram realizadas em segredo. 

Junto com o conhecimento preciso dos ensinamentos e dos ritos, hierofantes eram bem versados ​​em astronomia, engajando-se na observação, investigação, análise e registro de fenômenos solares, lunares e estelares. Hierofantes também eram matemáticos qualificados e tinham conhecimento de ciências arquitetura e engenharia. Eles eram curandeiros com habilidades especiais em medicina e, eventualmente, cirurgia. Eles também eram historiadores, já que os registros de cada civilização foram salvaguardados nos templos. 

Os cultos greco-romanos públicos, celebrando divindades cívicos e nacionais, tinha caído em descrédito geral e em seu lugar surgiram cultos secretos abrir apenas para aqueles que voluntariamente sofriam preparações especiais. A maioria dos antigos deuses greco-romanos eram adorados nos cultos dessa natureza. O mais famoso foram os mistérios celebrados em Elêusis, sob o patrocínio e controle do Estado ateniense, que comemora a adoração de Deméter e sua filha Perséfone. 

As três mais antigas tradições de mistério eram os Mistérios Órficos, associados com o nome de Dionísio, o culto egípcio de Ísis e Serapis, e o Mitraísmo Persa, que no século III d.C era muito popular por todo o império Romano. 

"É somente quando chegamos nos primeiros cinco ou seis séculos a.C, e os prósperos dias da Grécia e de Alexandria, que obtemos um conhecimento preciso da existência das Escolas de Mistérios, e de alguns de seus ensinamentos mais detalhados. Este período está associado a nomes como Anaxágoras, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles e, mais tarde, antes do domínio do cristianismo eclesiástico suprimisse a Gnose, e tivesse mergulhado o mundo ocidental na escuridão e horrores da Idade Média, temos nomes como Fílon, o Judeu, Clemente de Alexandria, Valentino, Orígenes, Proclus, Basilides, Jâmblico, e Plotino, todos falando abertamente da existência dos Mistérios e Escolas de Mistérios, alegando iniciação nelas, e abertamente ensinando tanto delas como era permitido publicamente. " William Kingsland. A Gnosis ou Sabedoria Antiga nas Escrituras Cristãs.


A tradição dos Mistério era composta por dois níveis:
Os Mistérios menores ou públicos; 
Os mistérios esotéricos mais elevados.

Todos os templos de Mistérios eram arquitetonicamente dividido em duas seções para os Mistérios inferiores e superiores. 

Os Mistérios Menores

Ao nível do público, os ensinamentos de mistério eram sugestivos e simbólicos, ao invés de didática ou de iniciação. O principal objetivo desses rituais públicos era apontar ao devoto o sentido de uma união mística com a divindade e oferecer uma convicção da imortalidade. O iniciado participava misticamente na passagem da divindade através da morte para a vida e essa união com o salvador-deus tornou-se a promessa da sua própria passagem através da morte para uma vida eterna além. 

As celebrações eram precedidas por rituais de purificação através do qual todos os iniciados tinham que passar. Os rituais próprios eram principalmente um tipo de drama religioso, constituído por representações cênicas que ilustram a experiência da divindade ou divindades, referindo-se velhos mitos - alegorias das forças criativas da Natureza e imortalidade da humanidade. 

Estes ritos eram combinados com a recitação de de fórmulas místicas proferidas pelo hierofante. O ponto culminante era a Epoptéia, ou visão plena, quando o hierofante revelava certos objetos sagrados para a assembléia. 



Os Mistérios Maiores

Os Mistérios Maiores eram exclusivos e secretos. Somente iniciados selecionados pelos hierofantes poderia mparticipar dos ritos. Conhecimento do que foi dito e feito era tão sagrado que era considerado um sacrilégio divulgá-lo para os não iniciados.

O fenômeno de iniciação era (e é) muito diferente do que a maioria das pessoas assume que ele seja. 

O objetivo da iniciação nos mistérios mais altos era relaxar o vínculo pelo qual o espírito é mantido pelo corpo:
Para permitir o espírito reunir-se com a Consciência Superior; 
Para liberar o espírito do feitiço em que é preso em cativeiro no corpo;
Para trazer o corpo e a mente à quietude; 
Para liberar a Consciência Superior a partir do fascínio da consciência do ego; 
Para reunir o espírito com a sua universalidade perdida; 
Para separar os sentimentos mais elevados sutis dos sentimentos sensoriais brutos; 
Para libertar o espírito de quaisquer equívocos; 
Para permitir que o espírito de viajar para reinos mais elevados;

Para atingir este objectivo é necessário:
     O iniciado buscando ajuda do hierofante; 
     Fé na possibilidade de realizar este objectivo; 
     Desejo ardente e consistência de propósito; 
     Humildade na realização de tal esforço importante;

Os processos envolvidos incluem:
Extasiar os sentidos através de:
     As sugestões de resignação do hierofante;
     O iniciado olhando para um objeto especificado;
     O hierofante e iniciante conversando com o espírito interno;
Definir o quadro mental como a experiência do momento da morte, seguido de renascimento;
O hierofante manipular o campo de força com as mãos;
    Para ativar o campo de força psíquica dentro do qual o iniciado reside (esta força da vida psíquica é semelhante na concepção dos campos gravitacionais e eletromagnéticos em física);
      Trazer todas as facetas desta Força Vital em interação harmoniosa e homeostase;
A Psique do hierofante liderando a psique do iniciante através de ações, sugestões de ações, sentimentos e pensamentos.

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[Continua]

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domingo, 10 de junho de 2012

A filosofia perene - breve intróito

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Durante minha vida sempre fui um ávido buscador de todas as coisas denominadas espirituais (apesar de que, atualmente, devido ao que sei, fico até com certo receio de utilizar esta palavra , razão pela qual o farei o mínimo possível): não sei se é porque diante de todas as coisas que presenciei e presencio, ou se é um traço de minha personalidade, mas o fato é que este mundo que vemos me é realmente algo muito enfadonho. Canso de observar sempre as mesmas coisas, ver os mesmos problemas e não refletir a respeito de suas origens e até de outras possibilidades maiores, exteriores. Uma das tradições que estudei com relação a este aspecto, ainda que pouco em relação ao seu imenso valor, é a denominada filosofia perene. Ela é um amálgama de várias tradições, considerando as mesmas em seu aspecto mais interior, essencial. Na realidade, é como se retirássemos das outras religiões, todo o seu aspecto exterior, tudo aquilo que não é essencial, e deixássemos apenas o principal. Se considerarmos apenas este ponto, todas as religiões, ou a maioria delas, fala das mesmas coisas, e majoritariamente, da busca do homem pelo sentido da existência. Para mim, se há algo interessante a se buscar nas religiões é o seu aspecto mais essencial, e não quaisquer outras frivolidades. A essencialidade é importante, e ainda, e principalmente, a busca interior e principalmente solitária. Na minha visão, muito mais vale alguém que procura algo, e que se burila incessantemente, melhorando-se, trabalhando o seu espírito, do que alguém que performa rituais sem entendê-los, apenas porque faz o que todos os demais fazem ou que alguém mandou fazer. Talvez por isso nunca gostei muito de aprender religiosidade em grupos, pois grupos abrem espaços para políticas, discussões, egolatrias: coisas que são contraproducentes ao verdadeiro caminho religioso, em sentido lato. Desta feita, a filosofia perene é justamente isto, aquilo que se encontra essencial, dentro das religiões. Podemos dar um exemplo com o Cristianismo. Existem várias escolas e grupos dentro do Cristianismo em geral. Uns advogam uma determinada coisa, outros grupos advogam outras. Os adventistas, por exemplo, advogam guardar o sábado. O domingo já é escolha de outras doutrinas, e assim por diante. De toda forma que, em havendo dissensão, haverá política, brigas. E será que isso é importante assim? Decidir sobre guardar ou sacralizar um determinado dia é importante desta forma? Creio que não. Assim, vejo que na realidade, as formas exteriores diferem muito, apesar de que muito do que é essencial permanece. Aliás, muito do que é essencial no pensamento religioso permanece através dos tempos, porque as pessoas são as mesmas e tem os mesmos anseios, curiosidades e dúvidas.  Uma das frases neste sentido que mais acho interessante é a de Dionísio, o Aeropagita, que sendo convertido para o cristianismo, enuncia o seguinte:
"Os simples, absolutos e imutáveis mistérios da verdade divina estão escondidos na super-luminosa escuridão do silêncio revelado no segredo. Porque esta escuridão, enquanto é extremamente obscura, é claramente radiante, e apesar de além do toque e do olhar, enche nossas mente cega com esplendores de beleza transcendente."
Ele fala além de uma tradição religiosa específica. Ele transcende os rótulos. E perceba o leitor, ainda fala de escuridão, palavra que muitos dos cristãos politicamente corretos da atualidade dispensariam e abnegariam no primeiro momento que tivessem a chance. Dionísio busca aqui ultrapassar os pensamentos da mente classificadora e limitada para tentar atingir o supra-sensível. Para mim, este é o aspecto de religião que se merece guardar, que se merece estudar. Não apenas um mero apanhado de rituais, de convenções, mas aquilo que está além. 

Desta forma, este é meu primeiro post a respeito deste tema, que espero ainda debater em momentos posteriores. 

Saudações.

sábado, 9 de junho de 2012

[Texto original] - Frio em Uarapiranga

Este texto é completamente e originalmente de propriedade minha e é registrado e protegido sob a égide da lei 9610/98 (Lei dos Direitos Autorais), sendo parte de uma coletânea de contos que irei lançar ao fim do ano de 2012. Espero que os leitores aproveitem. 

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(Desenho meu, início de 2012)
FRIO EM UARAPIRANGA 

                        Aquela cidade me chamava muito atenção e eu a havia visitado há muito tempo, sempre com amigos ou, ocasionalmente, acompanhado de uma garota a quem eu havia sempre devotado meus parcos interesses românticos. Anos depois, com meus trinta anos, e solteiro, depois de cumprir o labor que me ocupava, por algumas horas do dia, no laboratório de análises clínicas do município de Potenza, decidi passar outro fim de semana naquela cidade.
                        --- Mas assim, do nada? -- perguntou Arnaldo, um dos meus amigos mais próximos.
                        --- Faz algum tempo que quero ir lá. Passar um pouco de frio.
                       Queria mesmo sentir um pouco de frio, porque sempre me notava engraçado no frio, sempre achava que os lugares frios, onde vestimos roupas mais pesadas, e nos protegemos mais, paradoxalmente nos deixam mais à mercê dos elementos, do ambiente, do cosmos, pois o vácuo do universo é frio, e eu me sentia, assim, em casa, filho do universo gelado e indiferente. A ida, naquele fim de tarde, para a cidade fria foi tranquila, subi o pé da serra por volta das seis horas da tarde, que é quando inicia o pôr-do-sol. Não sabia onde ficaria, mas eu pensei que, em chegando à cidade, arranjaria um local para ficar tranquilamente, afinal esta não experimentaria alta estação até as férias de julho, onde os hotéis eram normalmente (ou anormalmente) lotados.
                        Era perto das sete horas da noite quando eu finalmente parei o carro na frente do primeiro hotel, depois de ver toda a cidade em um breve passeio. No hotel, eu disse para o recepcionista, um homem gordo, com um halo de fumaça ao redor do rosto devido ao cigarro que restava em um cinzeiro na pequena mesa à sua frente, que eu queria um quarto. Com calma, ele se levantou do sofá, e procurou dentro dos armários que ficavam por trás do balcão as chaves de um chalé simples. Assinei o livro de hóspedes, verifiquei o valor e fiz o pagamento em cheque, e então ele me levou, sonolentamente, até um dos chalés disponíveis. O quarto era simples, limpo e arrumado, com aquele cheiro de madeira tão comum às construções rústicas, que eu ansiava por experimentar. Como era noite, fiquei lendo um exemplar que havia trazido denominado “Os verdes corvos da colina”, e depois de assistir um pouco de televisão no saguão e jantar, me voltei ao chalé e deitei-me, por volta das dez da noite. Fazia frio, e eu adormeci facilmente.
                        Quando dei por mim, entretanto, me movia sentindo nas costas uma estrutura rochosa. Levantei-me, entretanto, com frio, e vi, admirado, aquela parede de pedra atrás de mim, à luz da lua. Estava solto, abandonado no meio da noite, em um lugar desconhecido, no frio. Poucas coisas me atraíam, e me deixavam, ao mesmo tempo, completamente aterrorizado ao mesmo tempo, quanto a experiência terrífica de uma escuridão gelada.
                        Quis correr, sem saber ao certo para onde, como é comum fazermos sem saber, quando nos encontramos na experimentação do medo, mas escorreguei e cai em cima de outra superfície dura. Levantei-me, o tornozelo doendo. Tentava olhar, mas pouco enxergava, a escuridão me cegava. Olhei para cima, a lua estava lá. Tentei me acalmar: minha visão já se acostumava com o cenário, e pouco a pouco, eu conseguia divisar estruturas retangulares de pedra. Aos poucos podia ver, nas formas que surgiam que havia juntamente com as cruzes, as lápides: eu estava, realmente, em um cemitério.
                        Mas como? Havia dormido, tranquilamente, na cama do hotel. Como poderia ter acordado ali? Comecei a ficar assustado novamente, assim que a calma da possibilidade de ver as coisas havia passado.  Então, olhei para todos os lados, e comecei a procurar o melhor caminho para voltar.
                        Novamente, me vi perdido ali. Pois que havia várias e inúmeras tumbas e lápides e eu não sabia onde estava a saída. Tremia. Foi então que apreendi os sons, vindos tanto do ambiente, como majorados pela minha mente; a percepção daqueles fenômenos fez com que eu começasse a suar, e, ao responder a um espontâneo barulho que surgiu atrás de mim, eu comecei a correr, pelo corredor que se abria na minha frente, entre as lápides.
                        Depois de correr por um tempo, na luz pálida da lua, vi o que me pareceu uma pessoa, uma forma feminina, não muito alta, nem muito baixa. Meu coração batia forte, e o frio estava em todo canto, em mim, e ao meu redor. Parei e chamei:
                        --- Ei. Você. Oi. Que lugar é este?
                        Ainda lembro até hoje que ela não me respondia. Lembro-me de haver pensado que, algumas vezes a gente pode ficar mais aterrorizado pelo silêncio do que por algum barulho. Hoje vejo que, momentos antes, eu havia sido aterrorizado pelo barulho, e agora, estava aterrado pelo silêncio poderoso e cruel.
                        --- Ei – disse, clamando pela atenção da figura novamente.
                        A forma se moveu lentamente. Vi bem quando as maçãs brancas do seu rosto se viraram para mim, sob a palidez da luz da lua. Eu tremi, pois minha mente desenhou, no rosto daquela pessoa, algo mais assustador do que imaginava.  Pois que ela estava sorrindo, um sorriso eterno e assustador, que já estava lá desde antes de seu rosto virar e me contemplar. Então, ela apontou para o céu, e vi, contra a escuridão, o braço no qual descia uma manga de um leve vestido:
                        --- Os corvos estão vindo...
                        --- Corvos? Como assim... eu não entendo...
                        Contra a luz da lua, no céu negro, eu pude divisar formas que vinham, pela noite, iluminadas parcamente pelo asteroide lunar. Demorou pouco para que elas tomassem o céu, e pude ouvir barulhos de asas ao longe, junto com crocitares. A garota, de súbito, atacou-me, pulando com as mãos em riste e atingindo, com elas o meu pescoço. Quando dei por mim, ela estava tentando estrangular-me, enquanto ria, nervosamente, os olhos abertos e a língua de fora. Caímos ao chão terroso. Eu retirava a mão dela com calma, até que meu nervosismo, que havia diminuído, houvesse novamente subido a níveis assombrosos, então, nesta hora, eu usei de minha biológica superioridade masculina e a empurrei para longe, com força, me levantando. Ela ainda tentou pegar a minha perna, mas o movimento que eu fiz expulsou a mão da moça e a deixou para trás, na escuridão, enquanto eu corria.
                        Gritando, eu acabei ouvindo uma voz, ao longe, enquanto divisei, aliviado, um facho de luz que se movia no horizonte.
                        --- Socorro! Alguém! Ajuda!
                        Foi então que finalmente consegui ouvir uma resposta:
                        --- Quem está aí?
                        --- Meu nome é Carlos! Por favor! Ajude!
                        Meu nervosismo começou a diminuir. Aproximava-me, finalmente, da luz. Um homem, segurando uma lanterna, gritou novamente:
                        --- Alguém aí?
                        --- Eu, aqui! – gritei, o suor escorrendo na testa.
                        O homem parecia não me ouvir. Chegando próximo dele, eu parei de correr, ofegante, e pus as mãos nos joelhos.
                        --- Uma menina estava ali... eu não sei como eu vim parar aqui. Pássaros... Em todo canto...
                        --- E eu ouvindo coisas.
                        --- Não, existem coisas mesmo lá... estranho... eu nem sei... porque eu estou aqui... O que é isso aqui?
                        O homem se virou e começou a andar, o facho de luz na sua frente.  
                        --- Ei, ei – chamei-o. Ele não retornou. Foi então que pensei, pela primeira vez, que, ou ele era muito desrespeitoso ou não estaria me ouvindo, opções que considerei com cuidado, dadas as minhas circunstâncias ali. Corri atrás dele, mas então, ouvi atrás de mim um crocitar. Parei, e voltei-me com calma.
                        Aproximando-se de mim estava uma daquelas aves estranhas, enorme e verde, e eu gritei, enquanto sentia meu ser se contorcer.
                        Foi então que acordei. Em minha cama, naquele chalé simples e rústico. Estava tudo silencioso, tranquilo e escuro, e o frio continuava a me cercar. Puxei o cobertor, e me enrolei na escuridão daquele recinto, esperando ansioso por um novo dia.
                        Na manhã seguinte, acordei e tomei meu banho. Saí para uma caminhada, mesmo antes do desjejum. A cena bucólica daquele vilarejo fazia com que me sentisse aconchegado, e ao mesmo tempo, rememorava minhas lembranças juvenis. O cenário do interior podia, às vezes, me dar a sensação de um mundo um pouco mais bonito. Por vezes, entretanto, eu refletia que isso era apenas a minha observação e não necessariamente tinha qualquer base na realidade.
                        Almocei em um dos restaurantes pequenos daquele vilarejo. No recinto, havia mais uma pessoa, se alimentando na mesa de canto daquela casa campesina. O arroz e o feijão estavam bons, apesar da comida não ser de forma alguma a razão pela qual eu estava gostando da experiência de almoçar naquele lugar. Comi devagar enquanto observava o céu nublado e chuvoso, e sentia que o frio já começava o seu trabalho. Enquanto terminava o almoço, as nuvens se agregaram com maior afinco, assim o clima ficou ainda mais ameno, e a luz do dia quase foi completamente ofuscada enquanto o dia ficava nublado. Enquanto mastigava mais um pouco do baião de dois, olhei para cima. Algumas aves sobrevoavam o céu. Terminei o almoço e paguei. Dirigi-me novamente ao meu chalé, passeando, calmamente, nas ruas da cidade, e observando a sua regular agitação de mais um dia comum, mais um dia de labuta como outro qualquer.
                        Abri a porta, sentindo o cheiro do quarto, e fui até a cama, onde, sentado, retirei a jaqueta. Queria descansar um pouco. O frio impingia a descansar pela tarde, então continuei a ler o livro que havia trazido, enquanto me recostei no travesseiro branco e macio daquele chalé. Depois de haver lido por algumas horas, e me admirar com a narrativa a respeito de uma vila fundada sob uma maldição, coloquei o livro no criado mudo, e adormeci.
                        Já era quase noite quando acordei, mas a luz do dia ainda podia ser observada, o lusco-fusco. Um raro momento de inusitada beleza. Eu senti saudade de pessoas que passaram; boas pessoas. Não sabia nem mais porque estava ali. Fiquei com vontade de voltar para a cidade, já havia desfrutado o suficiente da minha acanhada folga.  Apesar do frio, que aumentava a cada minuto, abri a veneziana para observar a paisagem bucólica e adentrar ainda mais no sentimentalismo que começava a afogar o meu ser. Sentei no pequeno banco que ficava do lado de fora do chalé. Foi então que vi aquele pássaro, que bicava alguma coisa em cima de um galho de árvore próximo a um jardim. Era um pássaro um pouco grande, com um bico reto, as pernas proeminentes e fortes. Eu não sabia muito de pássaros, mas eu considerava que ele podia muito bem ser um corvo. E um corvo particularmente estranho, no que tocava a suas penas, porque ele era preto, mas havia um brilho esverdeado que, aqui e acolá se deixava transparecer, em sua movimentação frenética. O olho, ao contrário, pelo que eu pude observar tendia para o carmesim. Eu nunca havia visto um pássaro com estas qualidades antes, e fiquei curioso por um momento. Até que a criatura aparentemente notou a minha presença e, sobretudo, o meu olhar, e ficou parado, voltando a sua mira inquisitiva e quase humana à minha pessoa. Tremi um pouco, e voltei para dentro do chalé. Até que eu fechasse a porta, o pássaro ainda continuava me observando. Senti-me um pouco estranho e, depois que fechei a porta e sentei-me à mesa que ficava na antessala, quase esbocei um sorriso, por ter fugido e me escondido de um pássaro; de toda forma, eu estava um pouco mais nervoso que o normal, principalmente em razão daquele sonho bizarro. Então, virei-me para pegar meu telefone. Tentei ligar para o Arnaldo e não consegui. Logo, o mesmo ficou fora do ar. Decidi ligar a televisão então. Sentei-me na borda da cama, e liguei o aparelho pelo seu controle remoto. O único canal que consegui sintonizar era de um programa de auditório, e algumas pessoas participavam em um daqueles famosos jogos de perguntas. Não era o melhor passatempo, mas por ora era o que me restava. Não demorou muito, entretanto, para que mesmo aquele canal começasse, aos poucos, a sofrer uma interferência. Dentro em pouco eu estava vendo apenas riscos e garranchos do que deveriam ser as pessoas, e ouvindo quase nada de suas vozes. Então, enquanto eu me levantava para utilizar a tática dos desesperados, qual seja bater de leve no aparelho, a cena sumiu inteiramente, deixando na tela apenas riscos esparsos e alguma estática. Então eu ainda passei os canais, tentando achar algum outro programa, e, em percebendo a futilidade da tarefa, desliguei o aparelho.
*****
                        Lá fora já anoitecia, e eu jazia deitado na cama, lendo o livro. O frio, contudo, aumentava, e eu não me recordava que fazia tanto frio ali naquela cidade. Ventos fortes começaram a correr, fazendo barulho nas venezianas. Ouvi, lá fora, o barulho de alguma coisa caindo ao chão, e não identifiquei o que era. Fiquei ali, absorto e entretido na leitura, até que a luz caiu, momentaneamente. Eu andei pelo quarto até achar a minha mala e peguei uma lanterna que eu havia trazido. Tentei me comunicar com a recepção, sem conseguir, pelo interfone que ficava próximo da porta de madeira rústica. Olhei pela janela, e a escuridão era total no terreno daquela hotelaria. O jeito foi tentar adormecer, para que o tempo passasse. O frio com certeza fazia a sua parte.
                        Levantei-me, depois de algum tempo, sem que houvesse mais energia no meu quarto. Tentei, tateando pelo recinto, comunicar-me novamente com a recepção, sem sucesso. O vento passava cortante, fazendo barulho tanto nas venezianas entreabertas de alguns chalés das redondezas, quanto na vegetação adjunta. Abri a veneziana e vi a escuridão quase total do terreno do hotel. Algumas vezes eu via formas passando nos céus que era, mas julgava serem pássaros noturnos ou mesmo morcegos. Tentava ali, não pensar em maiores possibilidades. Foi quando eu ouvi um barulho na porta. Era leve, e eu não podia ouvir bem por causa de todo o barulho que o vento já fazia. Fui até a porta, a lanterna em punho. Perguntei quem era. Uma voz saciou minha curiosidade. 
                        Era um garoto.
                        --- Senhor, você sabe o que está acontecendo? Você sabe onde estão meus pais?
                        --- Seus pais?
                        --- Sim, eles saíram, e eu não sei onde eles estão! Está muito frio!
                        --- Calma, pega aqui esta jaqueta.
                        Eu fiz sinal para que ele entrasse e coloquei a jaqueta ao redor dos ombros do menino, no escuro, enquanto olhava pela janela. Ouvi alguns barulhos ao longe e nada mais, que não consegui identificar, logo seguidos por mais ruídos que finalmente divisei.  Eram definitivamente passos, de alguma correria. Ao longe também consegui escutar gritos. E depois novamente o silêncio sepulcral. O garoto tentava observar pela janela alguma coisa, a despeito do escuro, mas, creio, que por um medo ancestral, ele, ainda que não houvesse visto nada tangível, deixou a janela em paz e foi se esconder nas cobertas da cama. Eu já não sabia mais o que fazer. Alguns gritos, ou o que pareciam gritos ainda eram ouvidos ao longe. Depois de algum tempo, eu ouvi um barulho que parecia próximo, ainda que não tão próximo assim, mas no meio daquele silêncio, consegui divisar bem o que me parecia como um grito de socorro. Então eu liguei aquela lanterna, e pedi para que o garoto esperasse.

                        --- Mas você não vai voltar. Que nem meu pai e minha mãe. 

                        --- Como assim? Do que está falando? – disse eu enquanto ligava a lanterna e abria a porta -- Voltarei rápido!
                       Saí correndo, pois tinha medo de que não conseguiria alcançar os gritos se não me deslocasse de forma célere. Olhei ao longe a administração e recepção daquela hotelaria completamente vazia de movimentos e sem nenhuma iluminação. Comecei a descer o terreno escuro daquele conjunto de chalés, até que cheguei a uma pequena estrada inclinada que seguia até a rodovia asfáltica. O grito de socorro estava quase sumindo, mas eu continuei à frente, com a lanterna, apontando freneticamente para um lado e para o outro, tentando definir o caminho a seguir naquela escuridão que me engolfava. Ouvia barulhos, mas continuava correndo, e o medo, refleti eu, ainda que de forma atrapalhada, nos pode pregar peças; que seria aquilo tudo, pensava, senão uma peça elaborada? Continuei apontando a lanterna nervosamente para todos os lugares que via, e nada. Então uma mulher gritou por socorro, próximo da entrada da cidade. Eu ouvi, nitidamente. Corri afoito, quase tropeçando nas pedras da estrada rústica, até que senti os meus pés no asfalto liso. Continuei seguindo sem saber nem o que nem porque, afogando-me em uma poça de nervosismo. O que estaria acontecendo ali, porque aquela mulher estaria gritando? Meu nível de adrenalina subiu. Reconhecia, porque sabia:  já havia experimentado o gosto da ansiedade. Esta aparecia súbita, atrás da língua, e o meu corpo latejava com as batidas do meu coração. Eu sabia.
                        Contudo, não poderia saber ainda o que iria encontrar, de fato. Foi quando vi uma mulher no chão, que eu presumi ser a que gritava. E perto dela, havia uma movimentação. Tal como o grito que ela deu, novamente, num lapso eu vi, sob a luz da lanterna que jazia em minha mão, aquela fila: uma linha de pessoas, ainda que não propriamente arrumada de forma metódica, mas uma linha desordenada mesmo assim, de pessoas andando todas umas atrás das outras. A princípio, o que me veio na cabeça foi justamente a forma alheia que as pessoas ali demonstravam, andando a esmo, digo, desordenadas, uma atrás da outra, sem que se preocupassem com a mulher que ali gritava por auxílio. Cheguei perto dela, e ela chorosa continuava ali, no chão, desolada. Mesmo quando cheguei, ela continuou chorando, olhando para aquela fila de pessoas que continuavam andando, alheios a ela. Peguei no braço dela e perguntei ainda que não soubesse se dividiria minha atenção com a estranha procissão de pessoas ali, na nossa frente, ou com os seus cuidados. Perdi-me um pouco nos pensamentos e então me voltei e perguntei novamente a ela:
                        --- A senhora está bem?
                        Ela não me respondia e continuava chorando.
                        --- Vamos, se levante – eu disse, ainda também, tão confuso quanto ela, puxando-a pelo braço direito.
                        Ela se deixou levantar, ainda que olhasse para outro lugar e não diretamente para o meu rosto. Continuava chorosa, olhando para a sua esquerda. A curiosidade finalmente me bateu enquanto eu olhava aquelas pessoas andando naquela fila, e vi ainda perplexo, que mais pessoas apareciam, na frente, perto da entrada da cidade, e por trás das ruas próximas, todas andando em fila, todas seguindo, mas para onde? Foi então que eu percebi que a mulher olhava para um determinado local, e que as filas de pessoas andavam também naquela direção. Eu não consegui me conter, e o coração eu sentia dentro de meu ouvido, bombeando o sangue com força. Eu apertei o braço da mulher.
                        --- Senhora, o que está acontecendo?
                        Ela finalmente me olhou, e chorosa, respondeu-me.

                        --- Meu filho e meu marido foram... com estas pessoas... eu, eu não entendo. Eles estavam comigo, andando, na praça, e então começaram a andar... – a mulher parou de falar, pois não conseguia mais conter o soluço. 

                        Fiquei ali, a lanterna ainda frenética, indo da mulher até as filas intermináveis que apareciam como minhocas de todos os locais. Eu comecei a ficar nervoso, e puxei-a pelo braço. O vento empurrava as nossas roupas e ameaçava derrubar as altas árvores que jaziam próximas. Ela gritou ainda mais uma vez.
                        --- Não! Eu quero ir até onde eles estão, quero procura-los. 

                        --- Algo está acontecendo aqui, está muito estranho – eu balbuciei enquanto a sentia puxar o braço. Em resposta apertei mais a minha mão, e ela começou a puxar o corpo com mais força, para longe de mim.
                        Então que ela começou a andar, próximo àquelas pessoas, e começou a sacudi-las, uma a uma, e elas não lhe respondiam. Assim que ela lhes soltava, eles continuavam a andar de novo, como se nada houvesse acontecido. Ela continuava uma a uma, empurrando as pessoas apáticas, perturbando a fila em que elas seguiam, embora não o bastante para que a fila se perdesse completamente. Com a cabeça baixa ao chão, elas continuavam seguindo.
                        O barulho foi muito pequeno, quase imperceptível. E a visão que se seguiu tirou-me o ar dos pulmões. Senti que ia desfalecer completamente. Tenho impressão que caí pra trás quando finalmente dei por mim, e ouvi a criatura proferir os sons mórbidos que ela emitiu. Não me lembro de tudo o que ela disse, pois quando percebi, corria, e atrás de mim a mulher ficou. Na correria, algo de quase imperceptível, humano mesmo, diria, aguilhoou-me a consciência, e então eu voltei àquela hotelaria desolada apenas pelo menino, para que ele não ficasse abandonado ali, e puxei-lhe os braços para que entrasse no carro enquanto ele também não sabia o que acontecia, enquanto ele também se revoltava.  Desci aquela serra, e quando o dia amanheceu eu estava perto da cidade mais próxima, Laturita, e levei o garoto para a delegacia do menor, o deixando próximo do prédio e instruindo-o lhe para que ele requeresse ajuda das autoridades competentes. Dirigi-me para casa, apesar de que, depois daquilo tudo, não me foi possível encontrar minha antiga vivência como eu a havia deixado. Eu havia presenciado um julgamento, o julgamento ultra-dimensional, sabia eu sem saber como podia saber de tal coisa. Ainda hoje lembro (apesar de que tremo quando me pego pensando nisso) daquela criatura. Ela tinha asas negras que se estendiam contra o céu. A face era de uma ave, juntamente com o corpo esguio. Ela pousou, fortemente, no chão, na frente da moça, cujo destino eu ignorei na minha fuga desesperada. E as palavras que ela proferiu diziam guturalmente, que em suma, aquela cidade e as pessoas que partilhavam a sua herança estavam condenadas, por gerações e gerações de amoralidades. E que finalmente agora, o fruto de sua maldade estava maduro, pronto para a colheita. Então por fim, a criatura riu, sim; ou ainda, tentou o melhor que pode emular tal atitude. Do que ela expôs, com poucas palavras, a ênfase foi no julgamento das diversas gerações das pessoas que moravam ali, naquela serra, que havia sido erigida sob uma maldição antiga, de forma que, aparentemente eu fui poupado porque não possuía vínculo algum com a região, tampouco aquela pobre mulher deveria ter, nem o menino. Desta parte só conjecturo. E tremo, enquanto penso na criatura e sua sentença. A certeza da sentença. A irrevogabilidade da sentença, do peso de uma autoridade que eu não conhecia, que nenhum humano conhecia ou poderia conhecer. E eu tremo ainda, porque acredito que este conhecimento não me é permitido, que não posso tê-lo sem que algo me seja tirado. Sinto medo e percebo-me vigiado às vezes. Em outras vezes, penso que, se algo iria acontecer, já deveria ter acontecido. E então me tranquilizo: é a única forma de poder continuar a minha vida, minha pequena vida alheia aos mistérios e aos julgamentos de entidades que o gênero humano não pode conhecer sem desesperar-se.


Rafael Tages Melo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Lovecraft: o Cosmicismo e o horror

Nyarlathotep com o Liber Ivonis
(desenho meu, 2012)
Era uma vez um homem chamado Howard Philips Lovecraft, nascido em 1890, em Providence, Rhode Island. Neste post eu não entrarei em maiores detalhes da sua vida pessoal, que podem ser encontrados facilmente inclusive na própria wikipedia (link aqui), e em diversos outros sites (para maiores informações, ver os links ao lado), de modo que não vou me concentrar em aspectos biográficos de forma extensa, a não ser que tenha relação direta com o que pretendo expor. 

Lovecraft, ou H.P. Lovecraft como ficaria conhecido na posteridade primariamente pelo seu talento literário, com obras que, felizmente, alcançaram a presente época, é, na minha concepção de mundo, um escritor fascinante, pois escreve sobre algo primordial - o medo. E ele sabia disto. Tanto sabia que ele mesmo apresenta esta sua visão de mundo, através de uma citação bem famosa; tão famosa, de fato, que não é necessária nenhuma referência específica para a trazermos a lume. Ele diz: 


"A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido."


Com esta frase, ele inicia o ensaio denominado "O horror sobrenatural na literatura", como nos conta Guilherme da Silva Braga na Introdução do livro "O chamado de Cthulhu e outros contos" da editora Hedra (2011). De acordo com Guilherme, podemos perceber que:
Segundo afirma Lovecraft, no entanto, o horror tem uma longa tradição que remonta aos primórdios da humanidade. Assim, não causa espanto a característica de grande antiguidade comum a celebrações primitivas como a Missa Negra, o Sabá das Bruxas, o Halloween, a Noite de Walpurgis e outros ritos orgiásticos de fertilidade tão frequentes nas histórias de horror de todas as épocas. O tema do horror ancestral atravessa todas as fases de sua obra: já em "Dagon" (1917), um de seus primeiros contos maduros, o narrador, ao deparar-se com um monolito entalhado, imagina estar diante de representações dos deuses imaginários de alguma tribo primitiva de pescadores ou navegadores; uma tribo cujos últimos descendentes haviam perecido eras antes que o primeiro ancestral do Homem de Piltdown ou do Homem de Neandertal nascesse. 
Assim que Lovecraft delineia a sua contribuição literária. Ele ficou conhecido pelo  horror de suas criações, mas, além disto, e também razão pela qual eu o considero fascinante, é que ele foi um autor que misturou também elementos de ficção fantástica, notadamente em uma série de escritos que seus estudiosos consideram o ciclo dos sonhos (ou "Dream Cycle"), um apanhado de estórias categorizada sob o signo da fantasia e do surrealismo, ainda contendo vários aspectos de suas histórias dos mitos de Cthulhu, porém com uma ênfase no fantástico. Isto demonstra que Lovecraft busca sua inspiração em fontes que fazem do seu trabalho uma contribuição única: a psicologia humana e sua mitologia, o conhecimento arcano, proibido, o oculto, o desconhecido e suas influências na humanidade, religião e seus aspectos esotéricos e a civilização em perigo. Tudo isto é unificado de forma singular para criar uma atmosfera em que o próprio leitor sente-se ameaçado, e o mundo ao redor empalidece enquanto ele segue desvendando os segredos que Lovecraft tem para mostrar sobre o universo. Isto é o ponto primordial que Lovecraft atinge: a sensação de terror universal, ou, como é chamado horror cósmico, no qual o indivíduo se sente diminuído perante forças que se acumulam, alheias e indiferentes aos desejos e anseios terrenos. Com as palavras, o próprio:
[...] todos os meus contos são baseados na premissa fundamental de que as leis humanas comuns e os seus interesses e emoções não têm validade ou importância no vasto cosmos como um todo. Para mim não há nada, mas infantilidade em uma estória em que a forma humana e as paixões humanas e as condições locais e normas são descritos como existentes e originais para outros mundos ou outros universos. Para alcançar a essência da externalidade real, seja de tempo ou espaço ou dimensão, deve-se esquecer que tais coisas como a vida orgânica, o bem e o amor, o mal e o ódio, e todos esses atributos locais de uma raça temporária e insignificante chamado humanidade, ter qualquer existência. Somente as cenas e personagens humanos deve ter qualidades humanas. Estes devem ser manuseados com incansável realismo, mas quando cruzamos a linha entre o ilimitado e hediondo desconhecido assombrado pelas sombras, devemos nos lembrar de deixar a nossa humanidade e terrestrialismo na porta de saída. 
Os Mitos de Chtulhu

Cthulhu desenhado pelo próprio Lovecraft
(fonte: wikipedia)
A principal contribuição, dentro da sua obra, é o que se chama entre os estudiosos do seu legado de os "Mitos de Cthulhu".  É uma coleção de histórias cuja principal se chama "O chamado de Cthulhu", que trata brevemente a respeito de uma entidade alienígena denominada Cthulhu, que, em sua mitologia, isto é, em sua criação, é um ser do espaço exterior que veio à Terra há muito tempo e aqui se instalou. Reza a lenda que, ele jaz no fundo dos oceanos, e que retornará à superfície, sendo que neste dia, a humanidade conhecerá o seu fim.   Existe, neste conjunto de estórias (o conjunto de mitos), uma mitologia que se interconecta, fazendo com que elementos se percebam em vários dos seus contos, que se unidos, contam uma estória singular. Fascinante é a construção do seu mundo, com a sua mitologia, misturando os conceitos que levam o leitor a questionar, junto com os seus personagens, a sua própria sanidade. Dentro das várias estórias, com as variadas entidades, o leitor encontra um universo que fala, de forma paradoxal, sobre a própria situação humana que vivemos, a nossa relação com o cosmos completamente indiferente ao nosso destino e condição. Realmente, uma contribuição digna para a literatura de horror, fantástica e estranha.

Esta foi uma pequena introdução do trabalho deste norte-americano, que por ser diminuta, não faz jus à completude e dimensão de sua obra, mas que tem o condão apenas de apresentar alguns elementos para o fã da literatura "estranha" que ainda não se debruçou sobre as obras deste grande autor. Vale, com certeza, a leitura.

Saudações.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Apresentação e objetivos do blog

Edgar Allan Poe, desenho meu, início de 2012.
"O verdadeiro conto estranho tem algo mais do que o assassinato secreto, ossos sangrentos, ou uma forma coberta batendo correntes de acordo com a norma. Uma certa atmosfera de temor ofegante e inexplicável de forças exteriores e desconhecidas deve estar presente, e deve haver uma ideia, expressa com seriedade e gravidade, de que a concepção mais terrível do cérebro humano - uma suspensão maligna e particular ou derrota dessas leis fixas da natureza, que são a nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios do espaço insondável." -  
H.P. Lovecraft  
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Saudações. 

Este é o meu espaço virtual para discussão de temas que sempre me chamaram a atenção, temas que durante muito tempo foram relegados apenas ao estudo religioso, no entanto, acabou encontrando novas forças em várias épocas, notadamente na ficção especulativa dos temas de fantasia, terror, e em suma o estranho ('weird fiction'). Aliás, o que é inclusive preeminente a estas formas, a própria mitologia, que é sem dúvida fascinante, e que desaguou muitas vezes na própria religião, muitas vezes fundindo-se em uma só forma de pensamento. Pretendo abordar estes assuntos em suas mais diversas formas, notadamente a literária, por meio de artigos, notícias, links, etc. 

Para quem quiser maior esclarecimento já ab initio, coloco aqui um artigo da Wikipedia sobre ficção estranha, do qual retirei a citação acima.

Além disso, o leitor encontrará aqui uma fonte e repositório de links para tradições metafísicas, ocultistas e gnósticas. 

Assim coloco à disposição dos navegantes virtuais este que é meu site pessoal de reflexão sobre estes assuntos. Fique à vontade para perambular por ele, e entrar em contato comigo.