quinta-feira, 7 de junho de 2012

Lovecraft: o Cosmicismo e o horror

Nyarlathotep com o Liber Ivonis
(desenho meu, 2012)
Era uma vez um homem chamado Howard Philips Lovecraft, nascido em 1890, em Providence, Rhode Island. Neste post eu não entrarei em maiores detalhes da sua vida pessoal, que podem ser encontrados facilmente inclusive na própria wikipedia (link aqui), e em diversos outros sites (para maiores informações, ver os links ao lado), de modo que não vou me concentrar em aspectos biográficos de forma extensa, a não ser que tenha relação direta com o que pretendo expor. 

Lovecraft, ou H.P. Lovecraft como ficaria conhecido na posteridade primariamente pelo seu talento literário, com obras que, felizmente, alcançaram a presente época, é, na minha concepção de mundo, um escritor fascinante, pois escreve sobre algo primordial - o medo. E ele sabia disto. Tanto sabia que ele mesmo apresenta esta sua visão de mundo, através de uma citação bem famosa; tão famosa, de fato, que não é necessária nenhuma referência específica para a trazermos a lume. Ele diz: 


"A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido."


Com esta frase, ele inicia o ensaio denominado "O horror sobrenatural na literatura", como nos conta Guilherme da Silva Braga na Introdução do livro "O chamado de Cthulhu e outros contos" da editora Hedra (2011). De acordo com Guilherme, podemos perceber que:
Segundo afirma Lovecraft, no entanto, o horror tem uma longa tradição que remonta aos primórdios da humanidade. Assim, não causa espanto a característica de grande antiguidade comum a celebrações primitivas como a Missa Negra, o Sabá das Bruxas, o Halloween, a Noite de Walpurgis e outros ritos orgiásticos de fertilidade tão frequentes nas histórias de horror de todas as épocas. O tema do horror ancestral atravessa todas as fases de sua obra: já em "Dagon" (1917), um de seus primeiros contos maduros, o narrador, ao deparar-se com um monolito entalhado, imagina estar diante de representações dos deuses imaginários de alguma tribo primitiva de pescadores ou navegadores; uma tribo cujos últimos descendentes haviam perecido eras antes que o primeiro ancestral do Homem de Piltdown ou do Homem de Neandertal nascesse. 
Assim que Lovecraft delineia a sua contribuição literária. Ele ficou conhecido pelo  horror de suas criações, mas, além disto, e também razão pela qual eu o considero fascinante, é que ele foi um autor que misturou também elementos de ficção fantástica, notadamente em uma série de escritos que seus estudiosos consideram o ciclo dos sonhos (ou "Dream Cycle"), um apanhado de estórias categorizada sob o signo da fantasia e do surrealismo, ainda contendo vários aspectos de suas histórias dos mitos de Cthulhu, porém com uma ênfase no fantástico. Isto demonstra que Lovecraft busca sua inspiração em fontes que fazem do seu trabalho uma contribuição única: a psicologia humana e sua mitologia, o conhecimento arcano, proibido, o oculto, o desconhecido e suas influências na humanidade, religião e seus aspectos esotéricos e a civilização em perigo. Tudo isto é unificado de forma singular para criar uma atmosfera em que o próprio leitor sente-se ameaçado, e o mundo ao redor empalidece enquanto ele segue desvendando os segredos que Lovecraft tem para mostrar sobre o universo. Isto é o ponto primordial que Lovecraft atinge: a sensação de terror universal, ou, como é chamado horror cósmico, no qual o indivíduo se sente diminuído perante forças que se acumulam, alheias e indiferentes aos desejos e anseios terrenos. Com as palavras, o próprio:
[...] todos os meus contos são baseados na premissa fundamental de que as leis humanas comuns e os seus interesses e emoções não têm validade ou importância no vasto cosmos como um todo. Para mim não há nada, mas infantilidade em uma estória em que a forma humana e as paixões humanas e as condições locais e normas são descritos como existentes e originais para outros mundos ou outros universos. Para alcançar a essência da externalidade real, seja de tempo ou espaço ou dimensão, deve-se esquecer que tais coisas como a vida orgânica, o bem e o amor, o mal e o ódio, e todos esses atributos locais de uma raça temporária e insignificante chamado humanidade, ter qualquer existência. Somente as cenas e personagens humanos deve ter qualidades humanas. Estes devem ser manuseados com incansável realismo, mas quando cruzamos a linha entre o ilimitado e hediondo desconhecido assombrado pelas sombras, devemos nos lembrar de deixar a nossa humanidade e terrestrialismo na porta de saída. 
Os Mitos de Chtulhu

Cthulhu desenhado pelo próprio Lovecraft
(fonte: wikipedia)
A principal contribuição, dentro da sua obra, é o que se chama entre os estudiosos do seu legado de os "Mitos de Cthulhu".  É uma coleção de histórias cuja principal se chama "O chamado de Cthulhu", que trata brevemente a respeito de uma entidade alienígena denominada Cthulhu, que, em sua mitologia, isto é, em sua criação, é um ser do espaço exterior que veio à Terra há muito tempo e aqui se instalou. Reza a lenda que, ele jaz no fundo dos oceanos, e que retornará à superfície, sendo que neste dia, a humanidade conhecerá o seu fim.   Existe, neste conjunto de estórias (o conjunto de mitos), uma mitologia que se interconecta, fazendo com que elementos se percebam em vários dos seus contos, que se unidos, contam uma estória singular. Fascinante é a construção do seu mundo, com a sua mitologia, misturando os conceitos que levam o leitor a questionar, junto com os seus personagens, a sua própria sanidade. Dentro das várias estórias, com as variadas entidades, o leitor encontra um universo que fala, de forma paradoxal, sobre a própria situação humana que vivemos, a nossa relação com o cosmos completamente indiferente ao nosso destino e condição. Realmente, uma contribuição digna para a literatura de horror, fantástica e estranha.

Esta foi uma pequena introdução do trabalho deste norte-americano, que por ser diminuta, não faz jus à completude e dimensão de sua obra, mas que tem o condão apenas de apresentar alguns elementos para o fã da literatura "estranha" que ainda não se debruçou sobre as obras deste grande autor. Vale, com certeza, a leitura.

Saudações.