sábado, 7 de julho de 2012

[Conto] Oportunidades - parte 2


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        --- Como está com o Mark? Ele vai lá em casa hoje? Eu vi vocês trocando olhares, Trish.
--- Sim! -- Trish ficou com vergonha – o que podemos comprar para logo mais? Vamos levar bolo de maçã e nuggets? Ele gosta de nuggets, ele me disse. Isso e os Toronto Maple Leafs... nossa, ele fala nisso a cada cinco segundos, sinceramente, você tem que ver. Ele me convidou para ir ao jogo com ele amanhã. Você vem?
--- Eu não quero ficar sempre segurando vela no seu relacionamento, Tri, de jeito nenhum, não vou não.
--- Deixa de ser boba, Lu!
As duas esperavam na fila do caixa, para pagar. Luana riu e olhou fora da lanchonete. Perto da janela passava um homem. Ela sentiu o chão ficar distante. Seu coração acelerou. Lá fora, passava um homem de preto, com as mãos dentro do casaco. E era Tibério.
--- É ele sim.
--- Ahn? Que foi amiga? -- Trish se virou para olhar pelos vidros do estabelecimento, mas só via um monte de pessoas passando.
--- Trish, vai pagando a conta, tá? Lá fora eu te pago.
Luana apressou o passo para fora da lanchonete, e gritou o nome de Tibério. Ele se voltou, surpreso.
--- Tibério! Lembra de mim?
O homem ficou ali a olhar para ela, até que lembrou.
--- Nossa... Luana? Putz... Quanto tempo!
--- É mesmo! Como você ta?! – ela perguntou.
--- Estou bem, é que tive férias do trabalho. E quis sair numa excursão a passeio, e vim visitar o Canadá, nunca estive aqui antes.
Os dois agora eram trocavam sorrisos, mesmo que os do rapaz fossem mais contidos e diminutos. Mas Luana nem percebeu, pois estava eufórica e entretida em sua conversa: “Onde você está morando?”, “Está com mais alguém aqui?”, “Há quanto tempo, hein?”, foram algumas das perguntas que, como outras, surgiram naquela conversa. Até que Trish chegou.
--- Esta é a minha amiga, Trish. Trish este é o Tibério.
--- Olá, tudo bem? – o homem falou.
--- Tudo. Você é brasileiro também?
--- Sim, sou.
--- Interessante – disse Trish – gosto de brasileiros, eles são alegres. Luana me conta cada coisa de lá. Sou doida pra visitar.
--- Que bom, o Brasil pode ser um lugar bem interessante mesmo.
Eles conversaram ainda um pouco ali, na noite fria.
--- Olha, Tibério, está ficando meio frio aqui, mas assim, nós vamos receber uma pessoa em nosso apartamento, um colega do trabalho. Você quer vir, também? -- Luana perguntava com vergonha, e seu rosto branco ficou um pouco avermelhado.
--- Ah, eu não sei... -- Tibério passou a mão no pescoço.
--- Venha, vai ser bacana... -- Luana insistiu.
--- Eu...bom... não sei..
--- Ah que coisa, você vai, vamos. ---  Trish pegou o braço de Tibério e puxou, com delicadeza.
--- Bom, já que vocês insistem, não é mesmo? -- Tibério brincou, e Luana riu.
Esperavam no apartamento, a chegada de Mark. Tibério ficou vendo televisão na sala, enquanto as duas amigas ficaram na cozinha, preparando os últimos detalhes do jantar. Alcovitavam enquanto isso, Luana contando para Trish tudo sobre a relação dela e Tibério.
--- Nossa, e ele te pediu em casamento, já? – perguntou Trish.
--- Sim. Algumas vezes... – respondeu Luana.
--- Algumas vezes?
--- E uma delas ele chegou a conversar com meu pai sobre isso.
--- Este rapaz gosta muito de ti.
--- Não sei se ele ainda tem o mesmo sentimento...
--- É só conversar com ele, amiga. Vai lá.
--- Agora? – perguntou Luana.
--- É. Eu preparo o resto, vai lá! Pergunta se ele tomar vinho. A gente tem vinho? Tá aqui, achei, ó, leva lá!
--- Tá... – Luana saiu um pouco na porta, e quase foi empurrada por Trish, que depois fechou a porta da cozinha.
Tibério olhou.
--- Oi... – Luana disse.
--- Oi... – ele respondeu.
--- Você quer vinho?

*****
Os dois conversaram por uma meia hora ou mais, até que Mark apertou a campainha, e se reuniram os quatro a conversar, na sala. Três garrafas de vinho foram esvaziadas, junto com alguns petiscos, até que os quatro se reuniram para jantar. A refeição correu bem, como o resto da noite. Tibério olhava para Luana disfarçadamente. Trish e Mark também freqüentemente trocavam olhares e risos. Depois do jantar, se reuniram na pequena sala, e ouviram histórias de Tibério e de Luana sobre o Brasil. Ao final, Mark convidou todos para verem os Maple Leafs jogarem, no dia seguinte sábado. Todos acabaram aceitando. Luana sentia-se realmente feliz, enquanto segurava o braço de Tibério. Eles combinaram de se encontrar no final da tarde, na lanchonete e depois irem ao jogo. Aquela noite ficou na memória de todos.

*****

No outro dia, as duas amigas entraram na cafeteria. Esperaram um pouco até que Mark surgiu. Esperaram ainda uma meia-hora, mas o horário do jogo estava próximo. Infelizmente, Tibério não havia ainda chegado.
--- Droga, com tanta coisa boa, nem me lembrei de pegar o telefone dele, ontem... – Luana suspirou.
--- Temos que ir agora, se quisermos chegar a tempo. -- disse Mark.
--- É... – Luana suspirou novamente. Estava visivelmente entristecida. Já desciam a rua, quando, finalmente, Tibério chamou.
--- Luana!
--- Tibério, a gente já estava indo sem você! Lembrei-me que não tínhamos seu telefone celular. Quase que a gente não se via mais!
--- Pois é. Mas ia ser ruim, né?
--- Ia sim – Luana concordou.
Conversaram sobre vários assuntos enquanto pegavam o metrô que ia para o estádio Rogers Centre, no centro de Toronto. Iam todos bem animados, enquanto Mark contava piadas e cantava e dançava com a camisa do Maple Leafs. Em um dado momento, Luana passou, mais uma vez, o braço pelo de Tibério. Estava frio, e o gesto parecia dizer que ela queria apenas se aquecer. Mark e Trish observaram, e fizeram comentários a respeito do novo casal, e todos riram bastante, e acabaram tirando algumas fotos. O jogo correu bem, e Luana e Tibério aproveitaram para conversar mais sobre seus interesses comuns, sobre projetos de vida, e sobre idéias e pensamentos que os dois tinham.
--- Você tem algum plano, Tibério?
--- Plano?
--- Isso, plano, de vida... você está no Canadá até somente a semana que vem. E daqui, você volta pra França? Para onde vai?
--- Eu pretendo voltar para... casa.
--- Casa?
--- É... casa.
--- Então, vai voltar pra São Paulo?
Tibério sorriu.
--- E você, pretende fazer o que?
--- Ah, eu – começou Luana – eu gosto daqui. Mas às vezes, sinto que me falta algo. Algo que aparentemente, eu não vou conseguir encontrar aqui.
--- Entendo...
--- Tibério, você lembra... Há uns sete anos atrás, quando você foi pra França? Eu... Hoje eu... -- quando ia falando isso, o Maple Leafs fez um ponto no jogo, e todos gritaram muito. Mark quase pulou na cadeira da frente. Trish segurou-o pela camisa. Todos riam bastante.
Quando tudo se acalmou, Luana olhou para Tibério. Os dois se olharam. E se beijaram. No outro dia, Luana e Tibério marcaram de se encontrar para passear pela cidade, ver alguns pontos turísticos. Depois disso, acabaram jantando juntos. Neste dia, Tibério acabou indo passar a noite com Luana, em seu apartamento.
*****
No outro fim de semana, marcaram de se encontrar em um restaurante. Iriam jantar e conversar. Provavelmente a conversa que definiria o futuro dos dois. Ela tinha se preparado para este jantar desde que eles haviam se reencontrado. Trish havia dedicado todas as horas de folga para ouvir a amiga, e fazer com que tudo corresse certo, mesmo que significasse que as duas não ficariam mais juntas. Mesmo que isso quisesse dizer que Luana iria para o Brasil, e as duas não fossem mais se ver. No dia anterior, as duas conversaram sobre isso, e se abraçaram. Chegaram a soltar algumas lágrimas. Mas logo disfarçaram. Deixariam o choro verdadeiro para o dia em que isso se tornasse realidade. Chegaram juntos ao restaurante, foram bem atendidos. A conversa fluiu, falaram de família, planos, filhos, casamento, trabalho, dinheiro, amor, desejos, sonhos.
--- Eu nunca deveria ter deixado você ir embora sem mim, naquele dia. Mas eu sei. Eu sei que eu fui muito indecisa, e isto deve ter sido difícil pra você.
--- Ahn... é...
--- Eu... sei que foi. Hoje eu sei que foi. Eu não sei por que não conseguia me decidir. Você sempre pareceu o cara certo, mas eu tinha tanta dúvida... -- Luana falou. -- Me perdoe...
--- Não tem problema. -- Tibério pegou na mão de Luana. Ela sentiu um pouco de frio.
Eles serviram-se novamente de vinho. Conversaram mais um pouco. Por fim, retornavam e logo estavam na frente do apartamento. Beijaram-se.
--- Agora estamos juntos. -- disse Luana.
Luana havia feito vários planos. Tibério concordou com alguns. Ela estava muito animada. Falava o tempo todo. Finalmente estavam juntos. Ela sentia isso e estava feliz. De alguma maneira, ela havia encontrado aquela pessoa com quem deveria passar o restante da sua vida.
--- Eu gostaria de ter conhecido você assim, e você teria ido morar na França comigo. Talvez a gente ainda estivesse morando lá. Talvez já tivéssemos até um garotinho, ou uma garotinha. Um cachorro também.
--- Eu quero três filhos!
--- Três? Nossa!
--- É! Três!
Tibério riu. Luana ficou envergonhada. Ele continuou:
--- Mas é sério, se você tivesse ido, talvez nossa vida tivesse sido diferente. Talvez...
--- É, mas... mas agora temos nossa chance! Daqui pra frente.
Tibério sorriu levemente. Luana vislumbrou uma certa tristeza em seu olhar.
--- Triste porque você vai ter que ir, amanhã?
--- É, de certa maneira...
--- Ah, mas agora é só o começo. Você volta e esta semana a gente vai se ligar e vê o que faz. Se der, de repente... Até o fim do mês... Eu já estou com você de novo, no Brasil.
--- Sim, isto seria bom. Quero agradecer-te pela companhia.
--- De nada...
--- Bom, já está meio tarde, melhor você dormir.
--- Tá bom...
Os dois se beijaram novamente.
--- Boa viagem amanhã, tá?
--- Tá bom.
Luana subiu as escadas, lépida. Na frente da porta do prédio, acenou para Tibério. Colocou as chaves na porta e começou a girar.
--- Melhor táxi para pegar hoje é ali na avenida, Ti.
--- Ah, tudo bem, eu vou andando pra casa hoje.
--- Onde fica este hotel em que você está mesmo?
--- É perto da loja de doces que vende molho de maçã, no fim da avenida. Sabe onde é?
--- Sim... Adoro aquele molho! Sei onde é sim. -- ela riu.
A garota abriu a porta. Tibério sorriu. Acenaram novamente e ele tomou seu caminho enquanto ela fechava a porta. Ele foi andando. Gostava de andar, nestes dias de decisões difíceis, de reencontros e assuntos inacabados, principalmente na chuva. E hoje, o céu estava pronto para um temporal.
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