quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

[Conto original] Sorrelfa, por Rafael Tages Melo.



--- Caio, estão querendo falar com você. Lá da chefia. 
--- Ok. 
Era o dia 5 de Novembro. A secretária da nossa filial em Nova York, Tereza, me avisava que eu havia recebido uma ligação da diretoria. Uma ligação que mudaria minha vida. Eu havia deixado o Brasil, e estava trabalhando na filial do “News United” em Manhattan, um feito que havia deixado minha família orgulhosa. Infelizmente, eu não estava satisfeito  da mesma forma. Eu odiava o lugar - não a própria profissão, que ainda me sustentava nos piores dias. Então eu cheguei à minha mesa, e atendi a ligação. Era Welsh, um dos sócios, que estava me felicitando e me contratando especialmente para a cobertura de uma entrevista com Halten Adolfson, terceiro secretário do corpo diplomático sueco na ONU, dali a dois dias, para falar sobre o assassinato do embaixador do mesmo país, Deima Streingell. Permita-me explicar melhor. O embaixador havia sido assasinado no dia 23 de Outubro em um hotel, com duas acompanhantes. Os três foram assassinados, e das mulheres restaram apenas os corpos. A mídia rugia, e o mundo acompanhava todo o desenrolar da investigação. Mesmo em nosso jornal, “News United”, formou-se uma seção especializada neste acontecimento para ficarmos a par de qualquer avanço. Eu fazia parte desta seção, e havia acabado de aceitar a missão que a mim havia sido concedida. Cobriria a entrevista, em nome do jornal, no dia 7 de Novembro. Agradeci ao diretor, e  desliguei. Aquela noite foi relativamente animada. Estava excitado pela oportunidade de fazer 
parte de um evento tão importante como este. Apesar de a cena ser triste, eu me beneficiaria na minha carreira jornalística pela cobertura que faria. Pela ansiedade e senso de autogratificação, combinei de sair à noite com Dora, uma garota que eu havia conhecido há alguns meses. Saímos para jantar comida tailandesa. Nova York, como sempre, estava em polvorosa, funcionava 24 horas por dia. Eu festejava e a personalidade forte e independente de Dora me acendia. Uma verdadeira nova-iorquina, forte, solteira por convicção. Ela me magnetizava, pelo jeito que era, o seu olhar distante, aparentemente apaixonada, mas ao mesmo tempo distante. Como havia sido minha primeira conexão naquela cidade, desde a minha chegada, me apeguei a ela, e combinávamos algumas  eventualmente, quando a agenda dela permitia, o que, naquele dia era mais um motivo para aumentar a minha excitação: uma grande oportunidade, no trabalho, e em encontro com a minha musa. Depois de irmos a um barzinho, e conversar, partimos para o cinema, em uma destas sessões da madrugada, e depois de tudo, acabamos mais uma vez juntos, no pequeno apartamento que eu alugava. Acordamos, próximos e ficamos um pouco ali, na cama, mas logo ela quis sair, me deixando em casa por volta das 9 horas da manhã sozinho. Eu havia decidido fazer minha preparação e pesquisa para a entrevista do dia seguinte em casa naquele dia, e assim o fiz. Desde de manhã, liguei o computador e fiquei em casa o resto do dia. Cumpria meus prazos e compromissos, e assisti vídeos de coletivas. Recebi, mais à noite, uma mensagem de Dora - uma daquelas mensagens alegres, mas críptica, a respeito de nosso breve rendez-vous na noite passada. Como sempre, a dissimulação típica de alguns tipos de mulher, e particularmente encontrado nela estava lá. Já era noite quando decidi parar de trabalhar, e fiquei ouvindo, pelo computador, vídeos de comédia aleatórios, stand-ups e similares. Continuei assistindo um vídeo no computador, e embalado pelas risadas, além dos eventuais barulhos da cidade, eu adormeci. O dia 7 surgiu rugindo, e eu comecei a me preparar para ele logo cedo. Vesti o terno azul escuro que eu possuía, e coloquei o sapato preto que eu havia engraxado na noite anterior. Já recebia ligações, do jornal, e de colegas do trabalho. Deixei o apartamento às 10 horas, para enfrentar o trânsito maluco até o jornal, e depois disto me dirigi ao Madison Resort, onde o dignitário sueco, amigo pessoal de Streingell iria finalmente falar à mídia. 
--- Caio, você tem que perguntar alguma coisa a ele, entendeu? Você já tem alguma ideia? -- o diretor da filial me perguntava, naquela reunião preliminar. Ele juntamente com outros colegas já deglutiam uma enorme quantidade de fast food ali em cima da mesa, que estava também abarrotada de papéis. 
--- Tenho. Estudei o caso. Com certeza, não desapontarei o jornal. 
Havia conseguido esta oportunidade antes dos 30 anos, e esta seria a primeira cobertura de proporções internacionais que eu iria fazer parte diretamente. Logo após à breve reunião, o diretor ainda me falou rápido de alguns outros compromissos triviais, e pediu para que eu saísse  em direção ao hotel, e assim o fiz. Preparei-me com a equipe, e saímos em direção ao complexo. Chegamos em pouco mais de meia hora, nos apresentamos, fomos escaneados por segurança, e então eu subi até o andar no qual a convenção se desenrolaria. Como ainda estava cedo, eu decidi descer novamente para o salão de jogos. Alguns homens jogavam xadrez, outros embaralhavam cartas, enquanto partilhavam rostos alegres e conversa de salão. Um deles entretanto, me pareceu estranho por estar apenas observando, e lendo algo no computador móvel que tinha em sua mesa. Então ele se levantou e veio até mim. 
--- Você trabalha em um jornal, certo? – perguntou um homem vestido de terno, com a barba rala, e um relógio de metal prateado, e o sotaque claramente estrangeiro, de algum dos países do Leste Europeu. Não perguntei, e não fiquei sabendo especificamente qual era, mas depois, bem depois, me lembrei que era parecido com o sotaque da Romênia. 
--- Sim -- respondi.
Ele olhou ao redor. 
--- Posso falar contigo ali na varanda?
--- Pode. 
Andamos um pouco, passando pelas cortinas brancas que dividiam o salão, chegamos à varanda do hotel. 
--- Como é o seu nome? 
--- Caio. – eu respondi, enquanto o homem olhava para os lados e para a frente, para o jardim que havia abaixo e à frente, no térreo.
--- Caio, do canal..?
--- Não, não faço televisão. Do jornal “News United”.
--- Ah, certo. Certo. Então. Deixa eu te falar uma coisa. Eu sei que você provavelmente não vai acreditar em mim, mas eu preciso que você acredite. O hotel vai ser atacado dentro em pouco. Nós não podemos fazer muita coisa, mas você tem que pegar estas coordenadas. Nelas se encontram os arquivos com tudo que sabemos. 
--- E porque eu?
--- Porque não? De toda forma, você trabalha em um jornal, não é? Tem condições de tornar público o que preciso for. 
--- Mas que história é esta de ser atacado? Será atacado por quem?
--- Eu não posso dizer. -- ele quase sussurrou o final. 
--- Podemos chamar a polícia. 
--- Não -- ele disse -- não adianta. Já está tudo cercado. Mas com sorte, você vai poder sair daqui. Guarde as coordenadas. 
O homem bateu no meu ombro e saiu andando, olhando ao redor com discrição. Eu fiquei a observá-lo, impaciente. Desci então até o mezzanino pelo elevador. Olhei o relógio. Depois olhei para a câmera que filmava meus movimentos no elevador. No mezzanino eu andei pelo meio de todas aquelas pessoas ali, e cheguei perto do segurança, que estava na porta. 
--- Olá -- falei-- Olha eu sei que vai parecer estranho, o que eu vou dizer, mas eu fui informado que talvez o prédio esteja no alvo de terroristas. 
O segurança fez sinal para que o companheiro observasse ao redor. 
--- Senhor, você tem certeza disso?
--- Sim. 
--- Me acompanha até a sala de controle então?
--- Certo -- eu olhei o relógio -- Sem problema. 
Ele pegou o aparelho de rádio na sua cintura e se comunicou com a central, afirmando que estaria com um código laranja. Eu segui pelo mezzanino enquanto voltávamos ao elevador. 
--- Está nervoso? -- ele me perguntou.
--- Sim. Quer dizer, este é um grande evento, seria o meu primeiro evento internacional. E agora isso...
--- Pois é. Mas não deve ser nada. Vamos verificar com os rapazes. 
O elevador chegou no subsolo 3. 
--- Venha comigo -- ele disse. 
Eu saí com ele, então fomos andando, até que chegamos perto de um corredor, no qual havia uma porta. Ele então me atacou, segurando pelo meu pescoço e abrindo a porta, e logo eu estava no chão daquele quarto, que parecia mais um galpão velho, com móveis e partes de móveis espalhados, latas de tinta, vassouras. 
--- O que está acontecendo? Que absurdo! – eu gritei – Qual é a tua cara? 
--- Fica parado aí, branquelo! Eu estou avisando -- ele apontava a arma pra mim.
--- Como assim? Que história é esta? Você não pode me matar aqui, eu sou um repórter conhecido, do jornal News United.
Ele riu. O semblante estava completamente diferente do segurança calmo e reservado que eu havia aproximado alguns minutos antes. Estava completamente tomado por uma força e uma alegria alienígenas, que faziam meu sangue borbulhar. 
--- Isso é muito maior do que você, seu verme. Isso faz parte do plano. 
--- Que plano é este? 
Ele apenas riu. 
--- Quer saber de uma coisa? Porque você não vem me enfrentar como um homem de verdade ein? Larga a arma -- eu comecei a falar. 
Ele me olhou, virando um pouco a cabeça. Eu era menor do que ele; ele, um segurança, homem negro, por volta dos 2 metros de altura, provavelmente sabia artes marciais, e com certeza ia à academia. Eu, por volta de 1,80 m, um pouco magro, apesar de me manter sempre em uma boa dieta, e fazendo exercícios regulares. Com pouco treino em artes marciais - com exceção do que eu fiz do período de boxe, quando adolescente, era muito pouco provável que eu fosse vencer aquele homem. Mas não é como se eu tivesse uma outra chance. Ele ia me matar, ali mesmo. Então eu o desafiei. Ele baixou a arma. Eu estava a pouco mais de dois metros dele. Ele baixou a arma, e retirou a camisa. Ele tinha músculos desenvolvidos, e uma tatuagem no peito esquerdo que a camisa do trabalho escondia. Uma mão, vermelha. Ele estalou os ossos do pescoço, e jogou a camisa para o lado: esta repousou em uma lata de tinta, e uma das mangas ficou próxima ao chão cimentado. Eu engoli em seco. O meu adversário, no entanto, não sabia de algo que eu levava na manga. Algo que eu sempre carregava: um soco inglês, no bolso do meu blazer. Eu sempre levava o mesmo, depois que fui surpreendido por um cachorro que se soltou da coleira que seu dono levava, e atacou uma garota de 15 anos na minha frente. Sorte dela, eu estava por perto, mas foi difícil livra-la da fera, até que o dono chegasse. Eu ainda recebi uma mordida forte perto do calcanhar. Se eu estivesse levando uma arma branca, algo como uma faca... ou um soco inglês, eu poderia ter surpreendido aquele pitbull. E assim eu fiz a partir daquele dia. Nunca deixava de andar com aquela arma, a minha proteção, adornada em dourado. E ali, ela me serviria. Um homem prevenido vale por dois, ou algo assim, como diziam. Não sei se valia por dois, mas com certeza, descobriria em segundos. Ele avançou até mim, me atingindo com um chute. Eu caí para trás, em algumas latas de tinta. Ele veio novamente, e eu saí do meio. Novamente ele ainda investiu para cima de mim, e desta vez eu respondi à altura, me  engalfinhando com o bruto, levei dois murros nas costelas, que doeram muito. Então, eu busquei freneticamente, aquela arma dentro do meu paletó. Ele me jogou no chão. E então partiu novamente em meu encalço. Finalmente, no meio de toda aquela confusão, eu consegui acertar um golpe, na canela dele. E depois na perna. E me levantei, e acertei um outro golpe cruzado na barriga dele. E depois, finalmente, no rosto. Ele caiu no chão, desacordado. Eu fui até ele, e peguei a arma da cintura. Abri a porta. E saí correndo. Então eu ouvi barulhos, gritos. Resolvi subir pelas escadas. Eu não sabia atirar, mas minha mente me instigava: não podia ser tão difícil. Eu já tinha visto centenas de vezes nos filmes. Então andei. Ouvi um barulho forte. A estrutura do prédio tremeu. Minha mente acelerou novamente: e se o edifício desabasse? Aquele medo, um medo específico, diferente do enfrentado por mim na luta contra aquele segurança fajuto, apossou-se do meu ser, quase me deixando paralizado. No entanto, só por alguns segundos o senti; continuei subindo as escadas, e a respiração se tornava cada vez mais ofegante: minha visão se tornava opaca devido à força extrema dos batimentos cardíacos. Cheguei finalmente ao mezzanino e  atravessei a porta de metal que dispunha uma letra M enorme em cima do espaldar, havia ainda uma outra porta, a qual abri novamente, apontando a arma: vi uma mulher correr, passando pela frente da porta, e mais outra, e um homem, todos visivelmente assustados, os braços na frente do corpo enquanto corriam. Dois homens, vestidos com o colete do hotel sinalizavam para que as pessoas seguissem uma determinada direção, que eu vi ser a saída do hotel. A sensação de normalidade - ou o que podia ser tomado como normalidade e segurança numa situação daquelas - corria de novo em minhas veias, e eu baixei a arma. Andei até o meio da loucura e me uni àquelas pessoas que corriam para fora daquele prédio. Já lá fora, a polícia estacionava seus carros, e ambulâncias já entravam no estacionamento. Eu fiquei ali, olhando aquilo tudo, já me sentindo mais seguro perto das autoridades públicas, das instituições de saúde e emergência e da luz do sol: olhava para dentro do hotel e via as pessoas corriam, assustadas, e me empurravam, enquanto eu o fazia. Queria entender o que havia se passado. Até que eu vi. Um dos homens que vestia o colete do hotel olhou para mim. E então ele continuou olhando. Um riso surgiu em seu rosto,  repentino. Mas não era um mero sorriso, não, não. Era um sorriso de alguém que sabia o que havia acontecido, inclusive em relação aos pequenos detalhes. Alguém de dentro. Alguém que sabia dos segredos ali. Ele sorriu, sardonicamente. Eu vi. Eu sei que eu vi. Então ele saiu da minha linha de visão, e várias outras pessoas entraram na frente dele, correndo, desesperadas. E eu não o vi mais. Um policial chegou perto de mim e pediu para que eu deixasse a arma no chão. Eu fui interrogado e contei minha história, e fui medicado também. E no fim do dia, eu cheguei em casa. 

*****

--- Sim, eu estou bem. Amanhã eu chego aí. Obrigado, Marcel. Abraço. – eu respondia diversos telefonemas sobre o ocorrido. O último havia sido de Marcel, colega jornalista. 
Sentei-me ao sofá da sala, e respirei profundamente. Depois liguei a televisão e fiquei observando as notícias. Finalmente, soube por outra empresa jornalística a respeito: uma explosão havia ocorrido no prédio do hotel, no 15º andar, e presumi ser a mesma que eu ouvi enquanto subia as escadas até o mezzanino. Não haviam indícios de que fosse algo premeditado ou ataque terrorista, diziam as autoridades. O FBI se prontificou a examinar o caso em conjunto com as potências locais. Por fim, quando o jornal começou a falar sobre uma nova descoberta a respeito de um tomate que ajudava a emagrecer, levantei-me e fui ao banheiro me assear. Lembrei do sorriso estranho do homem vestido como funcionário do hotel. Ocorreu-me ainda a conversa com o homem que havia me providenciado o papel com diversos números escritos; números a que ele se referiu como coordenadas. Depois que acabei o banho, fui procurar em meu paletó o papel. O que fazer? Ir à polícia? Contar aos colegas? Divulgar no jornal? Se nem mesmo os dignitários do corpo diplomático sueco sobreviveram a este ataque, ao ataque de que ele me havia avisado, o que poderia acontecer comigo? Era melhor tentar esquecer aquilo tudo e não abrir mais minha boca a este respeito. Tentaria deixar que as coisas fluíssem até sumirem, do mesmo jeito que vieram. Ou pelo menos eu achava que faria isso. No dia seguinte, fiz tudo da mesma forma, esperançoso em enviar à providência cósmica a impressão de que eu era o mais simples e ordinário ser humano a pisar sobre a Terra. Expliquei-me, naturalmente, para os colegas e para o meu chefe, contando o que aconteceu. Trabalhei naquele dia como de costume, ainda cobrindo os eventos do misterioso acidente no hotel. Fui liberado duas horas mais cedo. Atravessei a cidade poeirenta e confusa, e cheguei ao meu pequeno local alugado: tranquei a porta. O medo tomou conta do meu corpo, não sei porque a demora, pois o pior havia me acontecido um dia antes. No entanto, isso sempre me acontecia, de alguma ou outra forma: nos eventos mais danosos, meu corpo não reagia no mesmo dia. Se eu havia brigado com algum parente, algum amigo, no mesmo dia eu dormia mais realizado do que jamais poderia supor. Durante muito tempo, eu pensava ser uma reação química, algum hormônio que até ali, eu não sabia muito a respeito. Naquela noite, comecei a procurar por armamento na internet, para proteger-me de forma pessoal, em virtude do confronto que me assolou na figura do segurança insano 
daquele hotel. Minha perplexidade me dizia que eu não poderia me confiar muito tempo no meu soco inglês e que eu havia apenas tido um pouco de sorte. Absorto nestes pensamentos, eis que um vento frio subitamente adentrou meu apartamento. Decidi me levantar e fechar a janela. Foi então que vi um vulto, que subia pela parede externa do prédio. 
--- Merda! 
Fechei a janela, mas ele chegou e atacou um dos vidros, quebrando-o. Era claramente um homem. Joguei o meu abajur até ele, mas ele se desviou. Então eu vi que estava lidando com forças maiores – pessoas capazes de me matar, se quisessem. E aquele  vulto queria me atacar. Então eu sai correndo do meu apartamento, não sem antes pegar meu blazer esporte - que continha em um de seus bolsos, as coordenadas, e no bolso interno o meu confiável soco inglês. Desci na rua, e comecei a correr para o lado oposto ao da minha janela, em direção à avenida movimentada que ficava a alguns quarteirões. Um táxi estava passando, na rua paralela, e comecei a correr em direção a ele. Olhei para trás, e vi um outro vulto, agora claramente um cachorro correndo em todas as suas quatro patas. O que mais me chamou atenção, foi um brilho de qualquer coisa alaranjada nele. Eu entrei no táxi, e assim que ele começou a se mover, algo se bateu contra o porta-malas. Eu gritei: 
--- Corre, cara! 
Talvez pelo medo, talvez pelo grito, o motorista continuou a viatura pela rua.
--- O que foi isso?
--- Não sei. Um cachorro eu acho. 
--- Nossa mãe, ainda bem que eu trago aqui uma ajudinha -- ele levantou um revólver 38, cromado -- Pra onde você vai?
--- Direto aqui, nesta rua, até Andrews Avenue 9999 – era o endereço de Dora. Ela estava me ligando, então eu perguntei -- Posso passar aí? Estou com um problema. 

*****

Ela me confirmou e, em pouco, o táxi encostou defronte o complexo de apartamentos onde ela residia. Paguei a corrida com o dinheiro que havia no meu bolso, e subi. Ela me recebeu, tranquila e reservada, como sempre. Jantamos comida congelada, uma lasanha ao molho sugo que ela tinha no freezer. Quis contar-lhe, no jantar, mais detalhes, sobre tudo, mas não sabia como, exatamente. Apenas sorri, desconfortável, e a noite passou. Ela arrumou para que dormisse no sofá. Quando a casa estava em silêncio, eu me levantei e fui até o computador dela. Incendiado pela dúvida, liguei o mesmo, as coordenadas em minha mão. Inseri as mesmas no mecanismo de busca, e fui surpreendido: os números apontavam para um local que ficava a pouco mais de 10 quilômetros dali. A luz do escritório se acendeu. Era Dora. 
--- O que está fazendo?
Eu contei o que havia acontecido. Tudo que sabia. Ela me ouviu. Então eu finalmente pedi ajuda.
--- Eu quero ir lá. Ver o que é isso tudo. 
--- Sério? Agora?
--- Sim. E preciso de ti, se algo acontecer, você tem que avisar as autoridades.
--- Porque você quer ir uma hora destas lá? Deixa pra amanhã. É mais seguro. 
--- Eu... quero ir logo. Amanhã pode acontecer alguma outra coisa. 
--- Ahn... -- ela me olhou, com o rosto consternado. Relutante, aceitou. -- Ok, então. Vamos lá. Deixa eu só me vestir. 
--- Ok. 
Chegamos ao local alguns minutos depois, no Bronx. Era um prédio de apartamentos velho, abandonado e escuro, como muitos ali naquela parte da cidade. Empoeirado e cinza. Paramos o carro dela na frente, e eu pedi para que ela ficasse dentro do veículo. Observamos a rua, e quando o silêncio já tomava conta de tudo eu deixei o veículo. Me aproximei da grade, que estava trancada com uma corrente. Então eu escalei a mesma, e entrei na área jardinada do complexo de apartamentos. Andei um pouco mais, até chegar perto do prédio, então ouvi uma chamada. Era Dora. Ela me balançava uma lanterna por entre as grades. Eu me aproximei dela e peguei a mesma, agradecendo. Com o aparelho, caminhei cheguei na porta do edifício e girei a maçaneta, depois de hesitar um momento. Ela abriu, rangendo de forma sinistra. Apontei a lanterna para dentro, e parei, por um momento. Depois de olhar ao redor, entrei. Era um primeiro andar corriqueiro, com os armários para cartas do lado esquerdo, e a escada do lado direito. Eu comecei a subir as escadas, pois tinha uma ideia do que procurar. No papel, escrito junto com as coordenadas, havia um número, 303, que eu não havia compreendido até ali. Estava escrito com lápis, quase imperceptível, com outra caligrafia, e perpendicular às coordenadas. Possivelmente se trataria do apartamento no terceiro andar. Então, continuei subindo as escadas, até chegar neste. Procurei com a lanterna, o terceiro apartamento, e vi na porta, o letreiro quase apagado - 303. Estendi a mão, e girei a maçaneta da porta, que estava também aberta. Lá dentro, um apartamento comum, vazio de móveis e qualquer outra coisa, com exceção de uma. No meio da sala, jazia uma estrutura coberta com um pano azul marinho. Eu adentrei o apartamento, direcionando o facho da lanterna ao redor do imóvel. Então vi, próximo de mim, decorado com algumas teias de aranha, um interruptor. Acendi a luz incandescente. Então me aproximei da estrutura no meio da sala, e retirei a capa de tecido. Era um computador que estava escondido pelo véu. Um computador antigo, parecido com um 486 que minha família havia um dia adquirido. Eu me sentei no banco que havia debaixo da mesa, e liguei o mesmo. Havia apenas um fio, conectando o mesmo à fonte de eletricidade. Não havia conexão com a internet. A tela era monocromática. Logo apareceu, em um sistema operacional específico, uma série de arquivos e documentos. Eu comecei a ver e fiquei hipnotizado. Até me esqueci de Dora, por uns minutos. Esqueci-me que estava ali. Só passava pelos arquivos, um a um, saciando minha curiosidade, a respeito daquela conspiração. Então eu comecei a ler sobre a Mão Vermelha. Era uma sociedade mais antiga do que eu podia imaginar, com traços documentados desde 10.000 anos. Quase  não consegui acreditar no que lia. Então, um barulho meu conhecido atualmente, infelizmente, se fez ouvir. A arma engatilhou-se. 
--- Se afasta do computador. 
Era Dora. 
Levantei minhas mãos devagar. 
--- Estou levantando -- avisei com medo. 
--- Fica ali no canto, agora! -- ela gritou. 
Montes de coisas passaram pela minha mente. Até hoje não sei direito qual foi o processo de raciocínio - ou falta de  - que me levou a avançar em Dora, para tentar remover-lhe a arma. Começamos a engalfinhar. Então eu finalmente ganhei, pela força, pegando a arma. Ela ignorou meus gritos e tentou alcançar o computador, então ao invés de atirar eu dei-lhe um chute do estômago, para que ela ficasse no chão por alguns momentos. Ela rolou com dor. 
--- Que absurdo, Dora, você ia atirar em mim? -- eu disse, pegando no meu rosto, que estava ferido pelas unhas afiadas dela, que por coincidência, eram vermelhas. --- Isso prova mais ainda que tudo isto... não tente me impedir -- eu fui enfático, apontando a arma para ela. 
Então me aproximei do computador, e comecei a retirar os cabos. Eu iria levar a CPU para investigar. Foi então que vi, de canto de olho, algo que me chamou a atenção: ela apontava outra arma pra mim. Então corri para me esconder do outro lado da mesa. Ela se levantou e foi andando até o PC. Eu ouvi os passos. Tinha que ser rápido. Então eu empurrei a mesa, com a máxima força que pude conseguir. O monitor e a CPU caíram, ela atirou, eu continuei levando a mesa até próximo dela, e levantei a mesma, ela atirou, então eu joguei, e ela correu, e quando ela se desviou, eu pulei em cima dela, novamente nos engalfinhando. Entretanto, a dor também apareceu. Eu havia recebido um tiro no ombro. Não foi o suficiente para impedir de vence-la em uma luta corporal, mas eu sentia dor em cada movimento. Grunhindo, eu acertei dois socos nela, tentando evitar maiores escoriações no rosto e pescoço. Finalmente, eu a arremessei no chão, longe do computador. Então me aproximei do mesmo e peguei a CPU do chão, saindo daquele apartamento, correndo, com ela debaixo do braço direito, que estava em melhores condições do que meu sangrento braço esquerdo.  Saí no saguão, e vi o portão entreaberto -- então ela tinha aberto o cadeado e a corrente, com algum tipo de chave mestra? Não sabia, mas aproveitei e saí correndo dali, o computador no braço. Comecei a descer por aquela rua escura. Não andei um quarteirão inteiro, quando eu ouvi o carro de Dora ligar o motor. Então olhei para trás e vi as luzes acesas. Aprumei o passo, e qual não foi a surpresa - o carro vinha diretamente atrás de mim. Foi rápido aquilo - no final das contas, ela se atirou à própria morte. Pois um ônibus atravessou o caminho, atingindo o carro em cheio. Eu fiquei um pouco ali, olhando, e avisei gritando para que chamassem a polícia, mas, sem me orgulhar, saí dali o mais rápido possível.

*****

Fui dormir na casa de um amigo enquanto estudava o computador - enquanto tentava entender tudo aquilo que se passava. Descobri que a “Mão Vermelha” é uma sociedade secreta com projetos sinistros, que pretende dominar o mundo e instalar verdadeiro caos - ela funciona de forma encoberta, se entrelaçando em muitos eventos ao redor do mundo que até o momento eu via de forma difusa. Ela controla e manipula segredos e pessoas influentes. E além disso, o que me mais me estremeceu na descoberta daqueles arquivos, reunidos pelo falecido Deima Strengell e sua assessoria, é que ela dispõe de contatos extradimensionais - de poderes exóticos, e ligações com o ocultismo. Os arquivos não iam muito a fundo, mas eu descobri que o que me atacou naquela noite era um demônio, um cão dos infernos, um hellhound, como dizem os ingleses. Ainda tremo, e não sei como, sobrevivi um encontro com um deles. Dizem que, quando chamados, eles podem permanecer pouco tempo, e se lhes dão uma missão, evaporam quando não a realizam na duração máxima permitida, que foi o que aconteceu.
Depois de saber sobre isso, minha vida não foi mais a mesma. Deixei o meu trabalho, e passei a viver de bicos, viajando por grandes cidades americanas. Hoje, eu faço parte de um grupo de pessoas que sabe disso. Eu sei que aquele ataque ao hotel foi  planejado e meticulosamente realizado pela Mão Vermelha, da qual eu fujo, pois sei de seus segredos. No entanto, ainda não sei muito. Conversei então um dia com um tal de Ralph Nolan, investigador do oculto - do qual fiquei sabendo a respeito depois de iniciar meus estudos nesta área em razão dos fatos que aqui narro -  em uma cafeteria. Ele me contou mais a respeito disto tudo, e creio que eu vou poder achar o meu lugar nesta história toda. Há de haver algum. Lembro-me que ele sentou-se, à minha frente. Depois das trivialidades, eu fui logo indagando:
--- Eu quero saber o que está acontecendo. 
--- Todo mundo sempre quer. -- ele disse. 
--- --- Mas eu quero saber mais sobre isso tudo. Sobre... magia... isso existe? Como a gente faz mágica? Como funciona? 
---  São muitas perguntas... – ele respondeu, calmo.
--- Como funciona? -- perguntei mais enfático.
--- Na verdade, ninguém sabe ao certo como mágica funciona... mas nós temos algumas teorias. Uma delas é a seguinte - a gente não faz mágica. Seres humanos não podem fazer mágica por natureza, se você diz por mágica a alteração das leis físicas. Nós somos completamente 100% incapazes de mover uma única coisa sequer do seu rumo de forma sobrenatural. Quem deseja... fazer mágica... faz contratos. Pactos. Com entidades de outros planos. 
--- Entidades? 
--- Isso. Anjos, demônios. Chame do que quiser. Elas é que podem fazer mágica, como você chama. Quem quer, apenas pede emprestado um pouco este poder. Ou pelo menos acreditamos ser assim. 
--- Quem quer? Quer dizer, você não faz?
--- Não. -- disse Ralph, bebendo um pouco do café preto que havia requisitado. -- Eu só estudo. Aprendo. Mexo, mas não deixo o fogo me queimar. Existe entretanto, uma outra forma de magia, que pode nos dar poderes, se você quiser chamar assim. Desenvolver os poderes da mente. Este tipo de magia, é possível a seres como nós. 
--- Certo. 
Ele terminou de tomar o café, e conversamos mais. Muitas perguntas foram respondidas ali. Eu levantei e andei com ele. Sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. Fiquei com o seu cartão, que apontava para uma editora jornalística para a qual ele trabalhava, no Canadá. 
--- O que você vai fazer agora? 
--- Não sei ainda. -- respondi.
--- Sabe, se quiser, a gente pode conseguir um lugar para você trabalhar conosco. 
--- No jornal? 
--- É. 
--- Obrigado. Mas por enquanto eu vou tentar buscar meu caminho.
--- Justo -- Ralph respondeu. -- Saudações. Tenha cuidado. 
--- Terei. 
Então nos separamos. Ele desceu a rua, e sumiu na multidão. Continuei minha vida errante, fazendo bicos nas cidades para as quais viajava. Meu lema sempre foi 'Sapere Aude', que incidentalmente devia ser bem parecido com o dele. Ambos investigadores, da vida e do que está oculto. Estas são minhas memórias a respeito do meus primeiros encontros conscientes com o sobrenatural, até o dia em que minha vida - como jornalista de um renomado jornal, que procurava nada mais nem menos que a normalidade - acabou se esfacelando em mil pedaços.

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Imagem no topo do texto não é de minha propriedade.  Foi tirada deste link aqui.