domingo, 24 de agosto de 2014

Resenha do Livro 'Arquivos Soturnos', por Rair Oliveira.

Resenha do livro “Arquivos Soturnos” de Rafael Tages Melo.

Uma garota que nunca cresce. Um duende. Um policial perdido em devaneios, com sede de justiça. O que todos esses elementos têm em comum? São oriundos do imaginário do cearense Rafael Tages Melo. Seja inovando ou recorrendo aos antigos clichês dos contos clássicos de terror, o autor nos arrasta para uma trama sedutora e envolvente. Em cada capítulo, surgem personagens distintos, com seus conflitos e ideologias, mas de certa forma unidos, como se possuíssem um elo que une todas as histórias. Em alguns momentos deparamo-nos com imagens sarcásticas e pessimistas; em outros contemplamos um autor envolto em sombras.

Logo das suas primeiras páginas, emergem personagens peculiares, cujas personalidades contem profundas reflexões filosóficas. No conto “A menina que não morreu” somos levados a refletir sobre nossa vida terrena e sobre a possível existência de um plano espiritual; o autor sabiamente constrói uma explicação física para o tema.

Esse fato escandalizou uma pequena e fictícia vila. E a história não poderia ser ambientada em um local melhor: a França. A França dos folhetins. A França que foi um grande centro cultural, berço de Carmilla e de tantos clássicos de terror, que influenciaram a literatura do mundo inteiro.

A história dessa garota é fantástica. Nesse conto, Rafael optou por enveredar-se pelos caminhos obscuros da alma infantil. Através da narrativa, encontramos o reflexo de nossas próprias angústias e nosso eterno desejo de imortalidade. Nas palavras de Ralph, encontramos um sentimento ultrarromântico, um desejo de retorno à infância. Talvez Marion fosse a personificação desse desejo de Ralph e do nosso próprio desejo. Marion é aparentemente indefesa e infantil, mas percebe-se a iminência de certo perigo em sua personalidade.

Imagine que você pudesse penetrar a mente de alguém e fazer com que as informações que você precisa materializasse em suas mãos como um pequeno baú. É exatamente esse prodígio que o atormentado policial Ryle Ales possui. Desde o inicio, o conto se parece com aqueles seriados de TV americana, que envolvem organizações criminosas, máfias e detetives justiceiros. Novamente, Rafael lida com temas paranormais, através da peculiar faculdade do personagem: dormir e acordar distante de casa. Fazer justiça e desvendar os mistérios que circundam sua própria mente, são os
objetivos desse policial. À medida que as descrições são feitas, imaginamos quadros surrealistas. Certamente por isso, o autor dispensou as ilustrações. Além desses contos, mais nove histórias integram a obra.

A diagramação é simples, mas o texto é muito bem escrito. Em todos os contos, percorremos por caminhos que se assemelham as temáticas lovecraftianas. Existe um misto de sedução, mistério e elementos bizarros ao mesmo tempo. Uma verdadeira união de elementos folclóricos europeus e por vezes futuristas. Juntos contam histórias sobre diversos temas, épocas e situações.

O que se destaca também é a utilização de períodos curtos. Esse recurso é fantástico: é usado pelos grandes escritores e evita que a ideia se perca em meio a frases extensas e complexas. O conteúdo do texto é passado brilhantemente. Os nomes dos capítulos também se destacam, são enigmáticos e intrigantes. Textos que possuem elegância, qualidade conquistada através da apreciação do autor, por grandes clássicos literários.

Com uma abordagem peculiar, tradicional e ao mesmo tempo, inovadora, Rafael Tages, nos conquista pela simplicidade inicial de seus escritos, mas que vão se tornando complexos e profundos à medida que nos rendemos aos seus universos fantásticos. São temas atemporais que vão de encontro aos interesses dos leitores da literatura fantástica desta década. Rafael nos apresenta arquétipos e símbolos, levando-nos para um mergulho nas sombras, nas diversas mitologias e por que não dizer, dentro de nós mesmos. São páginas ricas, sequências rápidas, histórias com ritmo, que não exageram nas descrições, mas que dizem exatamente o que precisamos. O medo muitas vezes se apossa de nós, a respiração muitas vezes falha, durante a leitura empolgante dessas belíssimas páginas; histórias que foram imortalizadas dentro desse verdadeiro arquivo soturno.

Rair Oliveira.
Site Sombrias Escrituras
Endereço: http://www.sombriasescrituras.net/
Link da Entrevista no Site Sombrias Escrituras.

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